Mostrando postagens com marcador Dispensacionalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dispensacionalismo. Mostrar todas as postagens

Esperança em Tempos de Apostasia – Parte 3

O que é apostasia?

Há duas edições tenho falado de falta de esperança, de uma crença que tomou de assalto a Igreja, uma crença de que o amanhã é incerto e tenebroso. Isto é comum em todas épocas de apostasia – e é isto que estamos vivendo hoje. Uma época de afastamento, uma época onde a verdadeira religião está mais associada, visivelmente e na mente do povo, às falsificações deploráveis do que à verdadeira igreja, uma época onde os falsos mestres exploram o povo, devoram os pobres como se fossem pão, mentem, trapaceiam, pregam falsas doutrinas, causam escândalos, restabelecem costumes do Velho Testamento abolidos em Cristo, e, no entanto, aparentemente nenhum mal lhes sobrevêm. Isto é uma época de apostasia. Também é comum, quando a Igreja se afasta da sã doutrina de Cristo, que o amor se esfrie, que os ânimos se apaguem, que menos homens entreguem suas vidas pela fé, que menos dedicação, menos santidade e menos glória sejam vistos no meio do povo que se chama pelo nome do Altíssimo. O mundo também padece por causa da apostasia, pois, se a Igreja é a luz do mundo, quando esta luz está fraca, todo o mundo habita em trevas. As luxúrias então substituem o prazer divino da Palavra de Deus, e o orgulho substitui a constrição e o arrependimento. Isto é uma época de apostasia e é visível a todos olhos que vivemos numa destas épocas. Teria a Verdade mudado, ou a Escritura perdido Seu poder? Obviamente não. A Igreja sofre por causa daqueles que são seus aparentes membros, é a apostasia individual que abastece a miséria do abandono geral da Verdade. São os homens que introduzem cerimônias que nunca foram ordenadas no culto ao Senhor, são os homens que toleram e elogiam os lobos em pele de cordeiro e não repreendem o mal com o vigor que deveriam, são os homens que não vivem conforme a justa representação que deveriam fazer da Verdade e da Santidade de Cristo Jesus. Em suma, o problema somos nós. O problema sou eu, meu pecado, meu fraco combate, minha falta de fé. O problema é você. Não basta olhar para a igreja ao lado nem para o irmão do banco da frente; em primeiro lugar, nós mesmos somos a apostasia. O Senhor nos adverte: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão” [Lucas 6:42]. Devemos temer que Ele olhe para nós e declare "insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias concupiscências e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos " [Tito 3:3]. Ah, povo de Deus! Nação eleita desde a eternidade: Teria Cristo sangrado em vão, para comprar homens e mulheres que consideram Seu sangue um artigo barato? Teria Cristo sangrado e sofrido na Cruz para nos comprar uma reuniãozinha social aos domingos e nos livrar das coisas que fazem mal para nós mesmos como fumo, bebida e farra? Ou teria Ele trabalhado arduamente em Sua alma para comprar para Si homens e mulheres cujos passos sejam os mesmos de Estevão e de Filipe, passos de fé conforme o Evangelho - humildade, temperança, benignidade, zêlo, cruz? Não diminuamos a exigência que nos é feita! A Escritura é clara: todo aquele que foi Salvo pela Fé anda conforme as obras da luz e dá sua vida pelo Reino de Cristo, nega-se a si mesmo e segue seu Salvador, perdendo a própria vida para ganhar a que já lhe foi dada. [cf. 1 João 1:6, Mateus 10:32-39] Porém, andar em uma rua larga, com uma vida regalada, junto a multidão sem número, todos justos aos seus próprios olhos, é andar na estrada da apostasia rumo ao tormento do inferno e as câmaras da morte. Para olharmos a Esperança bendita que a Escritura anuncia para a Igreja, devemos ter a segurança da bendita Esperança de Cristo em nós. Devemos ter a clara certeza e o claro testemunho de que as obras da carne não são manifestas em nós, de que as obras da carne não prosperam em nossa vida, de que não vivemos em "adultério, prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas" [Gálatas 5:19-21]. Porque estas são as abominações derramadas como pragas sobre toda multidão de apóstatas e “os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” [Gálatas 5:19-21]. Ou vive em nós o poder do Evangelho segundo a piedade, em uma vida plena em Cristo, ou teremos sérios motivos para listar nossos próprios nomes entre aqueles que renunciaram a Graça e a Sabedoria do único Senhor e Cabeça da Igreja. Isto é apostasia – o fruto podre da hipocrisia, da presunção de salvação através de um exercício externo de religiosidade. É no coração pecaminoso de cada um de nós que ela começa e é lá que ela deve ser combatida primeiro.

A Razão da Esperança
Agora, se somos a verdadeira Igreja de Cristo, se temos combatido arduamente nossos pecados, com todos os meios espirituais que o Senhor nos provê, se temos tido vitórias e mortificado cada vez mais nosso Velho Homem, então há razão para Esperança, há razão para regozijo, para aguardar no Senhor que Ele nos visite e habite a Sua Igreja com a Glória que só Ele possui. Graças ao Senhor por que a nossa esperança em Cristo não se limita apenas à esta vida [cf. 1 Coríntios 15:19], mas conhecemos o poder dAquele que ressuscitou dentre os mortos e reina hoje, para ressuscitar conSigo sua Igreja quando ela, aparentemente, está derrotada [Apocalipse 11:11]. Soberanamente, Deus opera a vivificação de nosso espírito, conforme Seu Santo querer, e a vivificação de Sua Igreja, conforme Lhe apraz em Sua vontade. Cabe a nós nos humilharmos diante dEle, com corações quebrantados, arrependidos; cabe a nós orarmos, jejuarmos, clamarmos e nos dedicarmos à Deus com todas as forças e todo entendimento da Escritura, e esperarmos nEle. A Soberania de Deus é a razão da nossa esperança – o Seu poder que não foi vencido nem pela morte, nem pelo inferno; a Sua mão que não pode ser impedida, esta é a nossa esperança; esperança anunciada pela ressurreição de Cristo Jesus, da qual tomamos parte pela fé, e a qual prenuncia a vivificação da Igreja, a redenção que ela operará no mundo e a redenção final e cósmica na Nova Jerusalém.
Contudo, muitos perguntam: Como pode ser lícito orar por vivificação e restauração, e esperar tal coisa se as profecias anunciam que tudo se tornará cada vez pior e que estamos vivendo a Grande Apostasia antes do fim? Respondo: primeiro, que a Escritura não é precisa em suas datas proféticas (nem tem o intuito de nos fazer conhecer o futuro através de datas) e segundo, de que há profecias a respeito da vitória da Igreja e do Evangelho (e que tais profecias não manifestaram ainda seu maior grau de cumprimento). Ademais, ao relembrarmos nossas últimas edições percebemos que a hermenêutica experiencial e a influência de teorias como o arminianismo e o futurismo são os maiores responsáveis pela idéia corrente de que o futuro da Igreja é tenebroso. Não há, portanto, razões bíblicas para nos acuarmos e aguardarmos o retorno iminente de nosso Senhor - nosso Salvador não voltará sem que antes certos eventos, eventos de um rica bem-aventurança na Igreja, ocorram. Não é em nossas forças e métodos, nem em nossas riquezas terrenas, nem em uma igreja visivelmente próspera que devemos confiar, mas devemos manter nossos olhos fitos nos céus, junto ao trono de nosso Senhor que, como já citamos na outra edição, aguarda até que Seus inimigos sejam postos por escabelo de Seus pés [cf. Atos 2:33-36].

Estamos na iminência da Volta de Cristo?
Em Atos dos Apóstolos está escrito: “Esse Jesus, que dentre vós foi levado para o céu, há de vir assim como para o céu o vistes subir” [Atos 1:11]. Portanto, sabemos que nosso Mestre voltará. Este testemunho, esta esperança da glória final, é uma das mais basilares doutrinas Cristãs. Além de Atos (também em Atos 17:31), nós a ouvimos também nas Epístolas de São Pedro, São Paulo, São Tiago, São João e no Apocalipse. E podemos encontrá-la no Credo Apostólico: “de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos”. A volta de Cristo é, ainda, como consumação de toda a escatologia e como toda escatologia deve ser, uma doutrina para nos dirigir à santidade, para nos desligar da confiança naquilo que se pode ver e nos centrar em Cristo, para que tudo façamos por amor a Ele. A escatologia segundo a piedade versa que, como, quanto ao mundo, “todas as coisas hão de ser desfeitas”, devemos viver “em santo procedimento e piedade” e nos empenhar para sermos “achados por Ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis” [cf. 2 Pedro 3:11,14]. Toda nossa reflexão neste tema deve ser tão profunda de tal modo que produza mudança sensível em nosso proceder diário. O santo Apóstolo Pedro nos diz que devemos viver de maneira que apressemos a vinda do Senhor Jesus [cf. 2 Pedro 3:12]. A tradução desta passagem é diferente em algumas versões da bíblia, porém a palavra grega aqui usada no original (speudo), segundo o contexto e seu uso mais comum, significa apressar e não ansiar ou desejar ardentemente - como alguns dispensacionalistas tentam mostrar. Outras traduções inseriram o pronome vos, criando a expressão apressando-vos. Este pronome também não está no texto original e, se a tradução for ao menos honesta com a intrusão, você notará o itálico no pronome vos impresso em sua Bíblia, indicando que este pronome não faz parte do texto original. Assim, o sentido original do texto grego é simples e direto, ainda que desafie a teologia de certas tradições dispensacionalistas ou fatalistas, pois neste texto, o Deus Eterno mais uma vez nos ensina que Seus decretos imutáveis incluem os meios comuns. O Santo Espírito de Deus ordenou tais palavras nesta passagem e Ele nos comunica aqui que uma espera diligente, ativa, por parte da Verdadeira Igreja, é um sinal da vinda de Cristo. Uma espera passiva, acuada, é um sinal de esfriamento espiritual e de que Cristo não está às portas. Isto nos mostra que o conselho eterno de Deus, no qual Deus Pai determinou o dia da volta de Cristo Jesus foi, como toda a História, decretado em conjunto com outros elementos, com todo um cenário histórico montado por Deus. Foi assim na primeira vinda, que só se concretizou depois que o tempo profético – a plenitude dos tempos – chegou. O santo Apóstolo Pedro nos mostra aqui que a vinda de Cristo demora porque Ele é longânimo para conosco [2 Pedro 3:9] e aguarda com que todos os seus eleitos sejam chamados pelo anúncio do Evangelho [Marcos 13:10]. Uma Igreja que ora pelo cumprimento da Grande Comissão [Lucas 11:2], obedece ao Senhor com uma vida santificada em Cristo [2 Pedro 3:11], e evangeliza toda raça, povo, tribo e nação [Apocalipse 5:9;7:9] apressa a volta de nosso Amado. A esperança da Nova Jerusalém que desce dos céus, a esperança dos novos céus e da nova terra, onde habita a justiça, é a esperança desta Igreja, destes crentes, que já vivem de maneira condizente com esta esperança e já almejam e trabalham pela redenção do mundo, pela justiça e santidade que os aguarda em plenitude no estado futuro perfeito. Concluímos, portanto, que:
1) Eventos importantes deverão ocorrer antes que o Senhor Cristo Jesus retorne;
2) Nós somos parte ativa da realização destes eventos;
3) A volta de Jesus não é iminente.
Mas a Epístola aos Hebreus capítulo 10, versículo 37 e o livro de Apocalipse capítulo 22, versículo 7, dentre outras passagens, ensinam que Cristo virá “logo e sem demora”. Não se surpreendam com o que vou dizer, mas Cristo virá logo e sem demora! Sim, quando olhamos o mundo da perspectiva do Eterno para quem “mil anos são como um dia” [2 Pedro 3:8], então Ele virá logo. Todavia, quando olhamos pela perspectiva temporal, então há uma mudança, há uma cronologia, há uma demora. No capítulo 24 do Evangelho de São Mateus, os discípulos perguntam para nosso Senhor: “Quando será o dia de Sua vinda?”. Este capítulo deve ser examinado minuciosamente porque, embora Cristo soubesse exatamente o que o panorama futuro Lhe reservava, os discípulos estavam confusos e ainda não haviam aprendido a distinguir o futuro do Israel segundo a carne, e o futuro do Israel segundo o Espírito; eles confundiam a bem-aventurança do povo da Jerusalém Celestial com a bem-aventurança do povo da Jerusalém Terrena. Nosso Senhor lhes responde traçando um corte no tempo, sobrepondo e contrastando com o futuro da Igreja e o futuro de Israel. Voltarei a este capítulo em outra edição, mas por hora é suficiente notarmos algumas coisas na resposta que nosso Senhor forneceu aos Seus discípulos:

1) Sua vinda será precedida pela evangelização dos gentios: “E este evangelho do reino será pregado no mundo inteiro, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim”. Todas as nações terão testemunho do Evangelho, haverá discípulos de Cristo, conhecedores de Deus e da Verdade das Escrituras e haverá verdadeiras Igrejas, fiéis na Palavra e nos Sacramentos testemunhando a todo povo, raça, língua e nação [Mateus 8:11;13:31,32;28:18-20, Marcos 13:10,Lucas 2:32; Atos 15:14; Romanos 9:24-26; Efésios 2:11-20].

2) Sua vinda será precedida pela evangelização dos judeus: “Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério: ... que veio o endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo...” [Romanos 11:25,26]. É verdade que quanto ao poder e alcance do Evangelho não há diferença entre judeu e gentio [Gálatas 3:28], e que a Aliança de Deus não está mais confinada ao âmbito nacional ou étnico, mas, agora claramente, é universal e espiritual [João 4:21;Romanos 9 e 10]. Ainda existe, no entanto, um grupo de pessoas que estão arraigados no Velho Testamento, chamando-se pelo nome de judeus e praticando a religião da extinta nação de Israel. Este povo, que ainda guarda as leis abolidas em Cristo e permanece com um véu sobre seu coração de pedra, verá ser chamado de entre eles um remanescente, segundo a eleição da Graça, que, junto da “plenitude dos gentios”, sem qualquer privilégio especial, integrará a Igreja de Cristo, a chamada Israel de Deus [Gálatas 6:16] referido no versículo acima como “todo o Israel”. Junto aos gentios eles participarão desta espiritualmente próspera e notável Igreja que a promessa de Deus fará visível no futuro [Zacarias 12.10; 13.1; 2 Coríntios 3.15, 16; Isaías 27:9,59:20-21; Jeremias 31:33,34].


3) Sua vinda será precedida pela ira de Satanás: “Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar contra os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” [Apocalipse 12:17]. Quanto mais Satanás vê seu tempo se esgotando, tanto mais se encoleriza. Por isso, imediatamente antes da vinda de Cristo, após a bem-aventurança da Igreja, a falsa Igreja com seus falsos profetas e o mundo, se unirão de tal maneira nunca vista e terão o firme propósito de destruir a Igreja de Cristo, com todo o poder de Satanás e seus prodígios de mentira. Será um tempo de perseguição como nunca antes visto e a batalha se tornará tão terrível nestes últimos tempos de existência do mundo, que estes dias serão abreviados. Graças ao Senhor que Sua Igreja será cheia de santidade, fé, perseverança e amor como nunca antes fora.

Vemos, nestes sinais que a Escritura nos dá, que a vinda de nosso Senhor não é iminente. Que há um futuro de triunfos na perspectiva profética da Igreja. Que por mais que as forças do mal se levantem, o propósito de Deus é a vitória do Evangelho em todo o mundo. A partir da próxima edição, cada um destes pontos será detidamente exposto com seus devidos textos da Escritura para que conheçamos mais da nossa esperança futura e nos empenhemos em trabalhar para realizar o propósito dAquele que nos tem chamado, o firme propósito de nosso Senhor a quem foi dada toda a autoridade no céu e na terra [Mateus 28:18]. O firme propósito de que Sua Igreja seja Santificada no Espírito, cheia da Palavra, com um só coração e uma só mente, para revelar ao mundo o caráter e a glória de Cristo Jesus.

Esperança em Tempos de Apostasia – Parte 2

Na edição passada, analisamos alguns dos erros do construto pseudoteológico chamado dispensacionalismo. Agora, antes de prosseguirmos para um pouco mais de estudo sobre a história da Igreja e para as exposições dos textos da Escritura, peço mais uma vez que constantemente orem por nossa denominação, pelos estudos do Jardim Clonal e por todos os planos e ações que o Senhor nos tem dado. Orem e vigiem, pois devemos estar alertas às sutis ciladas do Diabo, ciladas como estes farrapos de falta de esperança que o dispensacionalismo nos legou, e como os problemas de hermenêutica que tão despercebidamente somos tentados a absorver do pentecostismo e do liberalismo teológico.Ressalto, para termos mais exata noção desta questão, que até aexistência do dispensacionalismo está diretamente relacionada ao problema de uma má hermenêutica – isto é, a adoção de uma maneira inadequada de interpretar os textos da Escritura. Sei que não é raro ouvir alguém fazer pouco caso desta questão, alegando que não é necessário um princípio hermenêutico para interpretar corretamente a Escritura, mas somente a “ação do Espírito”. Ora, temos dois erros nesta afirmação: primeiro porque a Escritura nos ensina que os meios e o conhecimento comuns são indistintamente ordenados pelo Espírito de Deus para fins extraordinários [cf. João 5:39; 1 Coríntios 14:26; Atos 17:28; 2 Timóteo 4:13] – o que nos leva a entender que as imprescindíveis horas de oração sincera cooperam para com o estudo, mas não o substituem; e, segundo, porque a idéia de que não é necessário um princípio hermenêutico para a interpretação bíblica é, em si, um princípio de uma hermenêutica relativista. Concluímos, portanto, que toda vez que alguém se aproxima do texto da Escritura está (conscientemente ou não) comprometido com determinado sistema de interpretação. Como não há uma forma neutra de se aproximar da Bíblia, cabe conhecermos os sistemas de interpretação existentes e optarmos pelo sistema que possua a maior consistência interna e que não nos leve a interpretar textos da Escritura como se a Palavra de Deus estivesse em contradição à ela mesma ou ao nosso sistema de interpretação. Alerto, principalmente, contra os perigos dos seguintes tipos de interpretação:

Alegórica –é a interpretação dos textos da Escritura de maneira subjetiva, buscando um “sentido espiritual mais profundo” do que aquile que poderia ser naturalmente compreendido do texto, ou de seu contexto imediato. É puramente arbitrário, como por exemplo: um teológo medieval dizia que os 7 filhos de Jó representavam os 12 apóstolos porque 7 é 4 somado com 3, e 4 multiplicado por 3 é igual a 12; outro dizia que as duas varas mencionadas em Zacarias 11:7 são a Ordem Franciscana e a Ordem Dominicana; o movimento espiritualista diz que “o outro consolador” [João 14:16] é o espiritualismo; já alguns maometanos dizem que foi este Maomé. Nenhuma destas interpretações considera o texto em si segundo o seu próprio contexto e o seu significado mais natural. A interpretação Alegórica, por ser tão subjetiva, admite também a possibilidade de que a mesma passagem possa ter vários sentidos e significados, inclusive conflitantes;

Histórico-crítica ou liberal – ao interpretar o texto bíblico, o adepto deste tipo de interpretação recusa partes claras e evidentes do texto (como a parte da narrativa de quando Jonas é engolido por um grande peixe, de quando Isaías profetiza sobre Ciro, ou de quando Cristo ressuscita), porque estas partes desafiam a visão de mundo cientificista e racionalista que se popularizou a partir do fim do século XIX;

Experiencial – é a interpretação da Escritura com o objetivo de encontrar nela as bases que justifiquem uma determinada experiência subjetiva ou uma determinada crença. É o caso dos pentecostistas que costumam balizar suas crenças nos pretensos dons, visões e outras manifestações estranhas à Escritura usando frases como “aconteceu comigo” ou “eu já vi acontecer” e, a partir daí, buscar textos isolados que sirvam de comparação às suas experiências. Quando a Escritura claramente desabona algo, ou quando ela não possui uma norma direta e clara sobre determinado assunto, não importa o que eu vi ou eu experimentei, porque eu sou passível de erro e de toda sorte de engano, enquanto a Palavra de Deus não – se a Escritura estabelece algo, então tenho bases firmes para crer nisso; se ela nega, silencia ou não provê suficientes detalhes sobre certo assunto, então simplesmente não há rocha firme sobre a qual construir um ensino;

Hiperliteralista, é a interpretação literal de quase todos os textos da Escritura, até aqueles evidentemente simbólicos ou metafóricos. Considera, por exemplo, que o Templo descrito nas profecias de Ezequiel seria um Templo literal a ser construído no futuro, apesar do relato sobre o rio no capítulo 47 contradizer esta idéia.

Tendo enumerado os erros mais comuns, agora nos é proveitoso avaliar o método mais adequado para o estudo da Escritura (aquele mesmo que foi utilizado pelos Apóstolos no século I, pela escola teológica da Igreja de Antioquia nos séculos II e III, por inúmeros santos homens do passado, pelos Reformadores do século XVI e pelos Puritanos nos séculos seguintes): o princípio hoje chamado histórico-gramatical. Podemos resumí-lo em 4 princípios básicos:

A Escritura é a única medida e meio de informação infalível e inerrante, capaz de ensinar-nos acerca da Salvação de nossa alma, do conhecimento de Deus, da confiança nEle e da forma perfeita da obediência que é devida ao Senhor [Romanos 1:19-21,2:14-15; 2 Timóteo 3:15-17; Isaías 8:20; Lucas 16:29; Efésios 2:20]. Nem homem algum, nem instituição alguma, tem autoridade superior àquela contida na Bíblia, que é a Palavra de Deus [2 Pedro 1:19-21; 2 Tessalonicenses 2:13; 1 João 5:9]; portanto, a Bíblia é o único intérprete infalível da própria Bíblia, trazendo, em suas partes mais claras, luz suficiente àquelas de mais difícil entendimento;

Há somente um único sentido pleno e verdadeiro para cada passagem da Escritura, que é o sentido originalmente desejado pelo autor humano para com os seus leitores. Este sentido deve ser buscado com afinco e defendido com fé e diligência, pois proveio da vontade do Espírito de Deus que inspirou o autor imediato do texto à expressão exata do que o Senhor intentou legar à Sua Igreja [2 Pedro 1:20,21; Atos 15:15-16];

Tal sentido único é obtido pela interpretação mais natural e imediata do texto, segundo a gramática comum e o bom uso da lógica. Quando, no entanto, houver controvérsias quanto à esta interpretação, tais dúvidas devem ser dirimidas por homens piedosos e capacitados pelo Espírito de Deus, com bom conhecimento das línguas originais da Escritura (especialmente pelos teólogos e mestres da Igreja) ou pela consulta à excelentes traduções (no caso de leigos). Mais luz será lançada sobre o texto, pela necessária consideração de seu tipo literário e da cultura, época e ocasião em que foi escrito. Por último, recomenda-se buscar o auxílio de bons livros que Santos homens do passado escreveram sobre o assunto investigado;

A Revelação de Cristo é a substância do início, do decorrer e da consumação de tudo o que é informado na Escritura [Lucas 24:27; Apocalipse 1:8; Colossenses 1:16]. Sendo, portanto, um livro de tal teor espiritual e divino, a Escritura só é plenamente compreendida em seu caráter como Revelação de Cristo, mediante a iluminação do Santo Espírito [João 6:45; 1 Coríntios 2:9-12]. Isto não dá subsídios para uma interpretação alegórica, porque a maneira como cada texto da Escritura nos leva a Cristo é determinada pelo contexto, intenção do autor, tipo literário e interpretação das passagens relacionadas da própria Bíblia.

Confesso que esta introdução à exposição dos textos referidos na última edição fez-se um tanto extensa; porém, é necessária pois, sem a correta base hermenêutica, não só a compreensão das profecias que estudaremos ficaria comprometida, como todo o modo de enxergamos a Escritura pereceria. Por isso, insisto ainda que todos nossos leitores orem por nossos presbíteros e pregadores para que estes cresçam a cada dia no Conhecimento do Amor de Cristo e na habilidade para nos conduzir, pela Graça do Senhor, à pureza, verdade e santidade que a Igreja de Cristo deve ter. E este é, sobretudo, o objetivo de todo o nosso estudo: que a meditação no ensino da Escritura sobre as últimas coisas floresça na forma de uma viva esperança cotidiana e, portanto, na forma de um apelo crescentemente sensível, do Espírito de Deus, para que nos consagremos ao Senhor com inteireza, rejeitando toda falsa doutrina, e, assim, onde quer que estivermos e seja qual for a vocação que o Senhor nos tem dado junto ao mundo, sejamos reconhecidos pela diligência e prontidão na luta pela expansão e progresso do Reino de Deus na terra. Retomo então nosso tema nestes estudo que é a Esperança em Tempos de Apostasia, a esperança em Cristo e em Sua Palavra, esperança sobre a qual a Escritura nos diz: “Todo aquele que nEle tem esta esperança, purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro” [1 João 3:3].


Futurismo, uma arma de pessimismo e desânimo

Como dissemos no início, a correta interpretação da Escritura é necessária para a saúde dos crentes, pois foi de uma má hermenêutica que surgiram heresias como o dispensacionalismo. E é no coração do dispensacionalismo que encontramos outro fruto vindo de homens que distorcem as Escrituras. Sim, lá encontramos um velho romanista, da pior espécie, um servo da obra-prima do Diabo chamada Igreja Católica Romana. Este romanista atende pelo nome de: futurismo. O futurismo a que me refiro é uma escola de interpretação das profecias da Escritura, que surgiu por volta do século XVII, pelas mãos calculistas de um Jesuíta. Esta escola defende que todas as profecias que não se cumpriram literalmente terão um cumprimento futuro. Esta idéia está baseada em uma divisão arbitrária do Apocalipse em partes, onde o capítulo 2 e o 3 são um resumo da história da Igreja em todos os séculos e o capítulo 4 em diante demonstra, cronologicamente, as coisas que “ainda hão de acontecer”. Esta armadilha escatológica foi uma daquelas armas forjadas nos porões sujos dos mais ímpios servos de Roma, assim como o fora o Arminianismo (a ligação entre certos romanistas semi-pelagianos com Jacobus Arminius é bem documentada na História) e o Misticismo Cristão (segundo um antigo cardeal da Igreja Romana, esta instituição não é o resultado da revelação de Cristo vivificando a herança judaica, mas a sincretização dos conceitos neotestamentários com as religiões pagãs – não é sem porquê que o Misticismo Cristão é considerado o pai dos movimentos pentecostais e, sobretudo, dos neo-pentecostais). O futurismo foi criado com um intuito certeiro: fazer-nos esquecer que o trono do Papa é o trono do Anticristo. Coisa que esta escatologia faz ao mover o advento do Anticristo para um futuro distante, quase inatingível e ao condicionar a interpretação do Apocalipse às crises geopolíticas e desastres da época do intérprete (o que, além de todo o mal já citado, ainda incitou muitos ao pecado da prognosticação – basta consultar a história dos Adventistas do Sétimo Dia ou das Testemunhas de Jeová para entender quão destruidor é o futurismo). É válido notar que, desde antes da Reforma, muitos homens haviam aprendido e ensinado que o Apocalipse é um livro para hoje (e não para o futuro distante) e que a manifestação do homem da iniqüidade - que se assenta no meio do povo de Deus dizendo ser ele mesmo o deus [2 Tessalonicenses 2:4; Apocalipse 13:1-8] - já havia se iniciado. Sabia-se também que Roma seria sua cidade [Apocalipse 17:9] e que ele derramaria o sangue dos Santos de Deus [Apocalipse 13:7,18:24]. No século XIV, quando centenas de milhares já haviam sido mortos pela Igreja Romana, por discordar de seus dogmas antibíblicos, o Papa Bonifácio declarou: “Eu tenho a autoridade de Rei dos reis, eu sou tudo em todos e sobre todos, assim que Deus, Ele mesmo e eu, o Vigário (substituto) de Deus, temos uma só autoridade, e eu sou capaz de fazer quase tudo que Deus pode fazer. O que podem me considerar senão Deus?”. Então a antiga suspeita se fez mais do que confirmada. Quando a Luz da Palavra de Deus iluminou o mundo através da Reforma Protestante, a denúncia da real identidade espiritual do Papa se alastrou e foi conhecida em toda parte. No magistral documento confessional do Congregacionalismo mundial (a Declaração de Savoy), John Owen toma como suas as palavras dos puritanos de Westminster e diz:

Não há outro cabeça da Igreja senão o Senhor Jesus Cristo. [Colossenses 1:18; Efésios 1.22] Nem pode, portanto, o papa de Roma, em nenhum sentido ser o cabeça; Mas ele é aquele Anticristo, aquele homem do pecado, o filho da perdição, que se exalta a si mesmo, na Igreja, contra Cristo e a tudo que se chama Deus, a quem o Senhor destruirá com o resplendor de Sua vinda. [Mateus 23:8-10; 2 Tessalonicenses 2:3,4,8,9; Apocalipse 13:6]

E esta era a crença generalizada de todos as Igrejas Reformadas até o século XVIII quando o futurismo conseguiu infiltrar-se no aprisco Cristão pelas ações dos emissários de Roma. Com o fermento do futurismo, no século seguinte cresceu o pré-milenismo – soma da concepção hiperliteralista de que o milênio de Apocalipse 20 trata de 1000 anos literais que terão um cumprimento futuro e da idéia cronológica de que os eventos do capítulo 20 ocorrem imediatamente após os eventos do capítulo 19. Com a junção das doutrinas do arminianismo, futurismo e misticismo (incorporado pelos movimentos pietistas radicais) o cenário para a Apostasia na igreja completou-se e os eixos do pensamento cristão moderno, já abalado por outros ataques ideológicos, moveu-se para longe da verdade da Escritura. Este processo transformou o discurso cristão. A pregação histórica do Evangelho centrado em Cristo mudou-se em uma pregação de um outro evangelho cujo objetivo é satisfazer a carne. A determinação ousada dos antigos Cristãos que conheciam, pela Escritura, a história da Redenção do mundo pelo poder da Palavra de Cristo, tornou-se no retraimento e mundanismo dos atuais cristãos que crêem que a Bíblia conta a narrativa da recorrente derrota da Igreja de Cristo até o dia da fuga em massa. Este veneno de Roma, esta visão deturpada arminiana, futurista e mística (que, desde a última década, é hegemônica no meio evangélico) está nos catapultando de volta à idade média ao ensinar que Satanás reina sobre o mundo com constante triunfo e, portanto, a única esfera de ação do Evangelho é a vida para a igreja e na igreja. Se já não bastasse nos atemorizar com a história de um invencível cerco dos exércitos das trevas, somos apresentados ainda a um sempre eminente Armagedon, a uma estranha doutrina de que fim do mundo está sempre às portas (apesar de ser claramente absurdo dizer que sempre estamos quase no fim). O resultado?! Perdemos a noção de que a obediência à Lei moral de Deus é dever de todas as nações, de todos os povos e de todos os governos, (não somente da Igreja) e de que a responsabilidade pela derrocada e falência moral do mundo e da igreja visível é nossa – a presente geração do povo de Deus. Perdemos a visão de quem são nossos inimigos e de como podemos vencê-los, perdemos a visão de que o Anticristo já está no nosso meio (há séculos!) e que deve ser combatido com a Palavra. Perdemos a compreensão de quais são os objetivos da Igreja e de como podemos estabelecê-los, em lugar de nos acuarmos amaldiçoando o mundo e lamentando que somos os últimos fiéis na Terra. Por isso, nos primeiros textos bíblicos que estudaremos aqui, com a boa hermenêutica da Reforma e a Graça do Espírito de Deus sobre nós, buscarei expor as promessas que o Senhor nos deu para nos conservarmos vigorosos e otimistas em cada dura batalha as quais, se amarmos ao Reino de Deus, nos disporemos a enfrentar daqui por diante. Como dissemos na última edição, sabemos que a Escritura promete tribulações e perseguições para a Igreja até o retorno de Cristo e que não há notícia na Bíblia de que um dia, antes do fim, o mundo e/ou a Igreja, se tornarão completamente puros. Porém, há na Escritura uma poderosa escatologia de vitória para a Igreja de Cristo, escatologia esta que já perdemos muito ao ignorá-la.

Esperança em Tempos de Apostasia – Parte 1

Esta nova série de artigos do Jardim Clonal tratará da Esperança da Igreja em Tempos de Apostasia. Serão apresentados, em várias edições, estudos em escatologia (comparando o que os textos da Epístola de São Paulo aos Romanos capítulo 11, do Livro do Profeta Daniel Capítulos 9, 11 e 12, do Evangelho de São Mateus capítulo 24, das Epístolas de São Paulo aos Tessalonicenses, da Epístola aos Hebreus e do Livro de Jeremias podem nos ensinar sobre a decadência da Falsa Igreja, a Apóstata que se deita com a Mãe de Todas as Abominações - bem como sobre a vitória e progresso da Verdadeira Igreja, a Pura Noiva de nosso Senhor Jesus Cristo). Oremos para que o Senhor nos abençoe nestes estudos, para que Sua Palavra seja apresentada aqui pura e límpida, sendo refrigério para nossas almas em tempos trabalhosos e fonte perene de esperança e forças levando-nos a conhecermos, pela Graça de Cristo, o poder das palavras do Apóstolo Paulo quando diz: já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim [Gálatas 2:20].

A Fé e a Piedade dos Puritanos

Algumas vezes, nos círculos teológicos da Internet, a Igreja Congregacional Kalleyana tem sido chamada de Igreja Congregacional Puritana. A razão disto é que Robert Reid Kalley tinha todas as características de um Puritano do século XIX, características as quais temos lutado para resgatar em nosso meio desde que iniciamos o processo de Reforma em nossas congregações. Processo este que, pela Graça de nosso Senhor, deu à luz a nossa denominação. A este respeito, o tema número 32 de um de nossos Símbolos de Fé (chamado Reflexões Bíblicas) diz que “o Puritanismo pode ser considerado um dos mais sublimes e santos modelos de vida cristã de todos os tempos”. Esta afirmativa não é, em nada, exagerada. Portanto, ainda nos falta muito para sermos realmente uma Igreja Puritana. Contudo, peço ao Senhor que não nos permita esmorecer, mas que nos dê, pela Fé em Cristo, uma porção do Seu Espírito como a que foi derramada sobre aqueles Santos homens do passado.

A teologia e a piedade Puritanas encontram poucos pares em toda história da Igreja. Como um movimento, o Puritanismo teve mais influência sobre a história do Protestantismo do que qualquer outro grupo isolado. A sua teologia moldou-lhes uma atitude ante o mundo que é a perfeita expressão da doutrina calvinista da Soberania de Deus. Eles realmente viviam como quem crê em um Deus que é Todo-Poderoso e ordena todas as coisas para o bem daqueles que amam ao Senhor, daqueles que são chamados segundo o seu propósito [cf. Romanos 8:28]. Um de seus lemas - vincit qui patitur (o que persevera no sofrimento, conquista) – demonstra quão firme era a expressão de sua Fé. Uma firme crença no cuidado e nas promessas de Deus, a qual é visível:

  • Na dedicação com que escreviam seus longos livros - plenos de conhecimento teológico e de devoção pessoal;
  • Na forma como pregavam – escravos do texto Bíblico, porém entregues com todo o seu ser ao sermão que proferiam;
  • Nas suas batalhas no Parlamento - para que a Lei do Estado fosse a mais próxima expressão da Lei de Deus;
  • E nas suas lutas nos campos de batalha - para que os monarcas tiranos e corruptos não dominassem sobre o povo e sobre a Igreja.

É verdade que muitas dessas vitórias foram transitórias, contudo, como podemos ver na história do Reverendo Puritano Robert Kalley, aquelas poucas vitórias que não são transitórias colaboram para o progresso do Evangelho de tal maneira que obscurecem até as inúmeras derrotas que os Puritanos usualmente sofriam. Porque, no sacrifício amoroso que esses homens fizeram por Cristo, gerações e gerações foram beneficiadas: dos ensinos dos Puritanos ingleses do século XVI surgiu a bela obra do Rev. Jonathan Edwards no século XVIII, renomado como um dos três maiores teólogos da Igreja, ao lado de João Calvino e de John Owen. E nas obras de Jonathan Edwards e John Owen nos foi legado o precioso entendimento da soberana obra do Espírito de Deus, que em tempos de apostasia, opera três grandes obras da Graça - preserva um remanescente para Glória de Deus, reaviva o povo de Cristo e fomenta a Reforma da Igreja e do mundo. E todas estas operações do Senhor por meio desses servos encontra impulso na firme crença Puritana de que nem todos os sínodos do inferno em conjunto podem prevalescer contra a Igreja de Cristo [cf. Mateus 16:18]. Foi esta firme Fé que preparou o coração dos grandes missionários do século XVII em diante e que deu força às palavras de grandes pregadores do século XIX, como William Wilberforce, que comumente instruía aos Cristãos, pela Palavra, a não ver o mundo como um navio naufragando e do qual as almas dos homens têm de escapar, mas como propriedade adquirida de Cristo, a cujo reino a terra e sua plenitude pertencem [cf. Mateus 28:18, Atos 2:34-35].

Como examinamos mais detidamente em um texto passado do Jardim Clonal, aquilo que cremos molda nossa moral - nossa prática de vida é um reflexo de nossas doutrinas. Pois a Palavra de Deus e a alma humana formam um conjunto perfeito, uma vez que a alma foi criada para que a Palavra habitasse nela. Portanto, qualquer distorção na Palavra, qualquer falha na pregação do inteiro conselho de Deus, gerará uma falha na alma. Ora, as doutrinas Cristãs pregadas desde os tempos Apostólicos sofreram terríveis ataques no século XX, e, com isto, a esperança e a vida Cristãs foram terrivelmente afetadas – e, portanto, a alma Cristã foi terrivelmente afetada. O Dispensacionalismo, por exemplo, é uma doutrina que inexistia até o século XIX; é oriunda de pretensos arroubos proféticos e pesadelos - forjada aos pés do herético fundador de seitas chamado Edward Irving. Antes de prosseguir, lembremo-nos de que Satanás é astuto e muito ardiloso em suas armadilhas. Digo isto porque costumamos pensar que uma vez refutada a falta de bases bíblicas- que é a divisão arbitrária das dispensações deste falso ensinamento - e uma vez refutado o absurdo a respeito das múltiplas voltas de Cristo e ressurreições, esta heresia está eliminada. Pensemos no que, comumente, dizem as Escrituras, ao provarmos por elas que:

1) uma só promessa (ou seja, um só plano de redenção em Cristo) para a qual todas as Alianças (ou Testamentos) de Deus apontam [cf. Efésios 2:12] - em lugar da errônea visão Dispensacionalista que propõe vários pequenos sistemas com promessas próprias e dois grandes planos (um para Igreja e um para Israel) com promessas diferentes;

2) um só povo de Deus, pois a Igreja sempre subexistiu oculta em Israel e, uma vez tendo sido revelada, é anunciada como parte da mesma Oliveira à qual tantas profecias do Velho Testamento se referiam e que era tida como símbolo do verdadeiro Israel - porque nem todos de Israel eram verdadeiros Israelitas, e nem todos filhos de Abraão segundo a carne eram filhos de Abraão segundo a promessa [cf. Romanos 9:6-8; 11:17-24; Gálatas 6:16];

3) muita inconsistência nas afirmações dispensacionalistas. Por exemplo, na Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, Capítulo 15, versículos 51 a 53, o Apóstolo nos diz que todos seremos transformados ao ressoar da última trombeta. Os dispensacionalistas dizem que esta trombeta é a do “arrebatamento secreto”. Porém, o Evangelho de São Mateus no Capítluo 24, versículo 31, nos fala de outra trombeta que soará durante uma Grande Tribulação em Jerusalém. Para o dispensacionalista, a trombeta de Mateus soará sete anos depois da última trombeta, a qual Paulo se referiu. É obviamente um absurdo que haja uma outra trombeta depois da última.

4) somente uma segunda vinda de Cristo, segundo a Escritura. Este evento pode ser chamado de parousia, epifania ou revelação, o que é claramente compreendido pela comparação dos textos parelelos sobre este acontecimento, e onde podemos notar, pela ordem e descrição, que tratam de um único evento [ cf. Mateus 24:3; 1 Coríntios 15:23; 1 Tessalonicenses 3:13, 4:15,16 e 5:23; 2 Tessalonicenses 2:1,8; Tiago 5:7; 2 Pedro 3:4 e 1 João 2:28]. Há ainda, a afirmação clara do versículo 28 do Capítulo 9 da Epístola aos Hebreus, onde está escrito que Cristo aparecerá uma segunda vez. Não que nosso Senhor aparecerá uma segunda e uma terceira vezes, mas apenas uma segunda vez. Aparição esta que não é em nada secreta, mas com voz de arcanjo e com a trombeta do Senhor, todo olho o verá, sendo esta parousia também chamada de o dia do Senhor, dia tantas vezes citado na Escritura [cf. 2 Tessalonicenses 2:1,2; Apocalipse 1:7, Atos 1:11] o que contraria mais uma invenção dispensacionalista. Igualmente, a Escritura nos fala de só uma ressurreição,de ímpios e justos, exatamente no dia do Senhor [cf. João 6:39-40, 44, 54; 11:24; Mateus 13:30].

Então, todo o fermento dispensacionalista estaria eliminado. Porém, isto não é verdade. O maior estrago que o Dispensacionalismo fez foi também o mais sutil: contaminou a posição escatológica histórica da Igreja com um injustificável fatalismo. O Dispensacionalismo transformou o Reino de Cristo revelado na Nova Aliança que, segundo o profeta Daniel, é como uma rocha que despadaça os outros reinos e cresce, se tornando uma montanha até tomar todo o mundo [cf. Daniel 2:35], em um reles plano B de um deus frustrado em seus planos de transformar Israel em uma potência teocrática mundial. O Dispensacionalismo transformou a esperança Cristã de cumprir a Grande Comissão e de ver uma Igreja como a dos Puritanos – perseguida, porém capaz de transtornar o mundo pela Santidade, Poder e Palavra de Deus - em uma esperança de ser como que repentinamente resgatado de uma igreja derrotada pelo mal. A influência dispensacionalista habituou os homens à acomodação. Ao contrário do que este falso ensino diz, a Escritura nos mostra que o Senhor Jesus já é o Rei dos Reis cujo reino já chegou [cf. Marcos 1:15; Atos 17:7; Apocalipse 1:5], cujos inimigos estão sendo pouco a pouco derrotados e postos por Seu estrado [cf. Atos 2:33-36] e cuja parousia, para a qual devemos estar sempre preparados, não deve ser esperada para logo [cf. Mateus 25:1-9; Lucas 19:13; 2 Pedro 3:1-15] como se a batalha pela manifestação da Glória de Deus na terra não merecesse nossos esforços. Devemos expurgar de nossas mentes as influências do falso ensino e nos aprofundarmos nesta mesma Fé que os Puritanos e Reformadores receberam da Bíblia, pelo Espírito de Deus. Está escrito na Reflexão número 53, do Símbolo de Fé Kalleyano, que: “o Reino de Deus é o domínio da Sua Vontade em todos os setores desta vida, e é promovido pela expansão da Igreja em todo o mundo”; portanto, em humildade e contrição, com orações e súplicas, temos o dever de alargar os limites da nossa esperança no progresso da Igreja, ainda que cientes de que o joio crescerá no meio do trigo no campo do mundo até o fim dos tempos. O já citado grande Teólogo e Puritano congregacional John Owen, (cujas obras foram as primeiras a serem traduzidas pelo Rev. Kalley para o Português, enquanto ele ainda encontrava-se na Ilha da Madeira), disse a respeito da esperança da Igreja, em um de seus sermões: Ainda que a apostasia se mostre ao nosso redor, nossa causa permanecerá tão verdadeira, certa, e infalivelmente vitoriosa, quanto é verdadeiro o trono de Cristo à mão direita de Deus. O Evangelho sempre será vitorioso. Este grande conforto refrigera minha alma.” Este sentimento e certeza, que foram contaminados pelas heresias do último século, precisam retornar à Igreja, precisam retornar à cada um de nós. Porque, se tivéssemos ao menos um vislumbre da Glória futura da Igreja segundo as promessas da Escritura, então um grande conforto e um grande poder para ação habitariam nossas almas, tendo em vista que a certeza de fé inpira a operosidade. A Escritura promete que as fiéis testemunhas conservadas pelo Senhor em meio à apostasia e à perseguição, quando aparentemente derrotados, ressuscitarão dos mortos [cf. Apocalipse 11:3-13]. Necessitamos crer no chamado e eleição dos quais a Igreja é alvo, porque a face do Senhor resplandece sobre nós, e a habitação do Seu Espírito nos dá a certeza da eficácia de quem opera o nosso querer e efetuar. Então, as profecias da Escritura deixariam de ser um jeito de advinhar as notícias do jornal de amanhã e se tornariam uma rica fonte das promessas e conhecimento da Aliança de Deus conosco. Lamentemos, amados irmãos, lamentemos nossa ignorância quanto à Palavra do Senhor, pranteemos nossa falta de fé, nossa negligência e falta de dedicação, arrependamo-nos da mente carnal com que temos lidado com este assunto e do modo como temos nos deixado levar pelas sutilezas de Satanás. Quão pecaminoso é clamar Maranatha – vem, Senhor Jesus! sem, na verdade, dedicarmo-nos a submeter o mundo ao Evangelho, de modo que a Noiva esteja completa e preparada para receber seu Amado. Ah, se o Senhor nos levasse à contínua oração e obediência, e à clamar pelo mesmo conhecimento das promessas da Escritura, os quais aqueles Puritanos do passado tiveram! Ah, se o Espírito de Deus nos fizesse recuperar o senso da proeminência da Glória do Senhor e da preeminência de Cristo em todas as coisas! Então entenderíamos que o Senhor não se deixa escarnecer e que, portanto, nunca desamparará a Igreja - porque Ele ama ao próprio Nome! Quanto precisamos, arrependidos, nos humilharmos e prantearmos por tudo o que a Igreja perdeu! E nos purificarmos de todo erro e impiedade. Só assim veremos o Senhor operar novamente no nosso meio aquela firme Fé dos Puritanos e todo aquele ardor em lutar para encher toda a terra do conhecimento de Deus e na batalha pela Glória do Nome de Deus em todas as nações.