Maravilhosa Graça

Você sabe que possui uma alma imortal. Todos sabemos. Ainda que você asfixie esse conhecimento natural, sua própria consciência testemunha de que a sua existência não se extinguirá depois que o seu corpo se for. É uma perturbadora e constante idéia diante da qual nem eu, nem você, nem ninguém permanece impassível. E é uma idéia da qual não podemos fugir: pois quando olhamos ao nosso redor, o Infinito nos dá seu testemunho. Lá está o céu sem fim, cujas alturas se estendem além das trevas exteriores; lá está o interminável mar, seus abismos inexploráveis, suas águas há longos milênios sobre a terra; lá estão as incontáveis estrelas, com seus segredos imemoráveis. Em cada uma dessas obras o Infinito aguça ainda mais nosso desejo pelo que é Eterno, a cada um desses chamados a imortalidade da sua alma responde com júbilo. Contudo, qual o exato destino de sua alma imortal quando seu corpo descer à sepultura? Estar incerto quanto a isto, não te faz estremecer quando pensa a respeito da infindável eternidade que te aguarda? A Escritura diz “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração [Eclesiastes 7:2]. É proveitoso pensar na morte, no fim de todos os homens. Sua alma é imortal, mas seu corpo não; por isso consideremos o inevitável crepúsculo, porque nem eu, nem você, poderemos fugir disto. E a questão necessariamente incluída neste pensamento é aquela que já nos fizemos, ainda há pouco: após a morte, pelo longo tempo no futuro sem fim, onde estará a minha alma imortal? Mais dia, menos dia, você terá de encarar esta questão e, peço ao Senhor, que Ele te conduza a fazê-lo agora, em minha companhia, pois, se deixarmos para fazê-lo depois, o súbito fim da existência pode te apanhar antes de ter lidado com esta questão da maneira como se deve lidar. Vamos, juntos, ouvir do Senhor o que Ele pode nos ensinar a este respeito. O que Ele diz que nos acontecerá depois da morte? Um Julgamento. Cada homem morre “uma só vez”, “uma vez para sempre” ao que se segue o Juízo [Hebreus 9:27-28]. Quando morrer, você se apresentará diante de Deus, o Justo Juiz dos vivos e dos mortos [Salmo 7:11, Atos 10:42]. Será que isto é bom? O Senhor nos diz que não será bom para todos. Na verdade, estar diante de Deus será terrível para muitos [Mateus 22:12-14, 2 Coríntios 5:9-11]. Por quê? Porque só terá descanso o homem que, quando se apresentar diante de Deus, já estiver em paz com Ele, já estiver sob Seu favor – este homem receberá sua parte da árvore da vida e da Cidade Santa e habitará com Deus para sempre. Porém, a pessoa que se apresentar diante dEle sem estar sob o Seu favor, receberá sua parte no Lago de Fogo e tormento eterno [Apocalipse 22:14-19, 20:14,15]. Portanto, devemos nos perguntar, com temor e preocupação: Como conseguir o favor de Deus? Como estaremos prontos para nos apresentarmos ao Senhor, no dia do Juízo? A surpreendente resposta é: Deus está oferecendo gratuitamente o Seu favor e a Sua paz. Ele está oferecendo-os neste momento a mim, a você e a todos quantos quiserem. Ele está oferecendo-os em Cristo.

Ouçamos a Sua voz a chamar: “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” [Isaías 55:1] “Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” [Apocalipse 22:17].

Gratuitamente Ele nos chama, não há necessidade de pagamento ou de permuta, o favor de Deus é gratuito para todo aquele que crê. “Crê no Senhor Jesus e serás Salvo” [Atos 16.31].

Veja que há boas razões para ser assim. Dar-te-ei apenas três motivos:

1)“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais” [Atos 17.24,25] – Deus não é servido como se de alguma coisa precisasse – Ele é completo em Si mesmo, não há nada que você possua que possa acrescentar algo ao Senhor;

2) “O Salário do pecado é a Morte” [Romanos 6:23] - Por causa dos seus pecados, tudo o que você merece de Deus é a Morte.

3)O preço suficiente para te redimir e te dar o favor de Deus já foi pago [1 Coríntios 6:20, 7:23].O único que poderia agradar ao Senhor, o único Justo, Cristo Jesus, viveu uma vida reta e morreu uma morte que não merecia, para comprar Salvação para os que nEle crêem.

Agora, venha e compre sem dinheiro, venha e receba a paga pelo trabalho de Cristo. “Ora ao que trabalha, o salário não é considerado como favor e sim como dívida.” [Romanos 4:4] Se você tenta ganhar a salvação pelas suas obras, mas labuta também o pecado, o salário que te é devido é a morte por causa do pecado [Romanos 6.23]. A Palavra nos diz que “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos” [1 João 1:8], donde entendemos que não há homem algum isento de culpa, que todos nós, com maior ou menor malignidade, com maior ou menor dolo, pecamos. Sim, é isso mesmo que a Escritura nos diz: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” [Romanos 3:23, cf. Salmo 51:5]. Assim, se todos temos algum pecado, todos receberemos o salário do pecado, que é a morte. Simplesmente não há saída para o pecador, nenhuma de nossas boas ações podem nos livrar da escravidão do pecado [João 8:34, Romanos 6:20] e de, por conseqüência disto, herdar o inferno. Por isso, tentar adquirir a Salvação e o favor de Deus como recompensa por nossas boas obras é inútil [Romanos 3:20, Gálatas 2:16]. É impossível aos homens adquirirem a Salvação para si mesmos [Marcos 10:27, Mateus 19:26].

Se somos tão miseráveis e estamos tão certamente condenados, como receberemos o favor de Deus? Simples: confiando no trabalho e na retidão de Deus e não em nada que provém de nós mesmos.“Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça” [Romanos 4:5] Abra seus olhos e veja! Eis aqui a Maravilhosa Graça de Deus! Eis o sentido daquele chamado que ouvimos antes, eis o significado da voz do Salvador que diz: “Ah! Todos vós, os que tendes sede, vinde às águas; e vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; sim, vinde e comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” [Isaías 55:1]. Por isso você pode vir, por isso você pode comprar sem dinheiro: porque aquele que não trabalha para alcançar o favor de Deus, mas crê em Cristo Jesus, receberá o salário pelo trabalho de Cristo Jesus e será visto por Deus como Justo! O Senhor Cristo Jesus, Filho de Deus, viveu em perfeita santidade, sendo tão rico em retidão e merecedor de tão excelente favor de Deus que pode tomar da Sua retidão e entregá-la a Deus no lugar das imundas obras do pecador. Sim, repito: Nós, que somos pecadores, se crermos que Cristo é a nossa Justiça, receberemos o salário devido a Cristo pela retidão dEle e não o salário que era nosso pelo nosso pecado. Cristo já pagou o débito de todos os que crerão nEle! Venha e receba o que Ele comprou, o tesouro precioso de Salvação e da abundante vida com Deus - Ele o comprou com Seu preciso Sangue, para todo aquele que nEle crer.

Ouçamos ao Senhor Jesus Cristo mesmo, que nos ensina sobre tal maravilhoso convite da Graça por meio da parábola do Fariseu e do Publicano:

“Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.

O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.” [Lucas 18:10-14]

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e não permita que sejamos cegos para a hipocrisia e altivez que espreita nossas almas! Veja que o fariseu orava para si mesmo, para obscurecer a consciência de sua dívida, confiado em sua religiosidade e em suas boas obras; por isso ele adentrou o templo sob a Ira de Deus, e sob a Ira de Deus desceu para sua casa. Nenhuma das suas boas ações, nem a sua dedicação religiosa, nem seus jejuns, nem sua obediência externa à Lei, nem seus dízimos - nada do que fez pôde torná-lo verdadeiramente Santo e Justo. E Deus não exige nada menos do que santidade absoluta e perfeita justiça para estar sob Seu Favor. “Sede santos porque Eu sou Santo” [1 Pedro 1:16] diz o Senhor; Ele mesmo é o padrão da santidade que Ele exige: “Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? Aquele que anda sinceramente, e pratica a justiça, e fala a verdade no seu coração; Aquele que não difama com a língua, nem faz mal ao próximo” [Salmo 15:1-3] e “Nela [Nova Jerusalém] nunca jamais penetrará coisa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira” [Apocalipse 21.27]. Assim, o fariseu não obteve o favor de Deus; antes, a Sua Ira porque, por mais que se esforçasse em seus deveres, jamais alcançaria perfeita justiça; e pior, por considerar que a mínima retidão que possuía era digna do favor de Deus, ele menosprezou a santidade do Senhor e imaginou um falso deus, muito menor e mais débil que o Santo, Santo, Santo Deus Altíssimo e Eterno. O fariseu permaneceu nas suas injustiças, cego em seus pecados, porque quis alcançar ao Senhor com sua própria força, pela sua própria obediência. Mas ninguém será justificado por obras [Romanos 3:20, Gálatas 2:16]. Agora atentemos para o que Jesus Cristo nos ensina acerca do ocorrido com o publicano. Ora, o pecador publicano, tão ciente de sua miséria a ponto de nem levantar os olhos aos céus, ofereceu apenas seus pecados ao Senhor; não ostentou pretensas boas ações, mas clamou por Sua misericórdia. E o que ocorreu? Ele foi declarado justo! Deus o perdoou e o enxergou como justo, pela retidão que há em Cristo, onde reside toda Misericórdia e Graça. O coração do publicano estava cheio de genuíno arrependimento, seu espírito sinceramente quebrantado diante do Altíssimo, sua mente tomada por ódio aos seus pecados e vergonha de sua miséria. Ele conhecia sua necessidade de perdão e conversão; ele sabia que só Deus podia dar-lhe um coração novo em Cristo. Ele se humilhou, ele implorou. E o publicano desceu para sua casa justificado.

Eis, sobre todos os povos, bendito Eternamente, o Deus que perdoa pecadores e converte os caminhos destes para o bem! Eis o Deus que está perto de cada um de nós, Deus Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. E é em Cristo, pela Sua perfeita justiça, que Ele pode ouvir seu clamor; em Cristo Ele pode receber sua fé e no Sangue de Seu Sacrifício, você pode ser lavado de suas iniqüidades; Sim! No Precioso e Santo sangue derramado na Cruz.

Desista de toda sua justiça, desista de buscar méritos em si mesmo, desista de comprar o favor de Deus com o seu trabalho. Cristo nos ensina, e toda a Escritura nos fala o mesmo: Não é o seu esforço, nem sua caridade; não são cerimônias religiosas e sacrifícios próprios, não é nenhuma “lei cármica” ou princípio de “evolução interior”; enfim, nada disso liberta o homem e dá o favor de Deus. Todas estas coisas são falsas, umas são fábulas e outras nada são por si mesmas. Todas estas coisas, se consideradas como caminho de justiça, apenas farão de você um escravo e demonstrarão sua condenação nos sofrimentos causados pelos seus próprios pecados. Elas não têm nenhum poder contra as vontades malignas da carne, nem nenhum poder para Salvação. Porque Deus pôs uma pedra de tropeço para todos que tentem chegar a Ele pela sua própria força. E esta pedra é a consumação da Graça da Salvação na Cruz de Cristo. “Está consumado!” [João 19:30] disse o Cristo na Cruz. Está finalizada a obra da Salvação de todos que, por fé, olham para Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” [João 1;29], e como autor do sacrifício na Cruz que cancela o escrito de dívida, que era contra nós [Colossenses 2:14]. A obra da Salvação já foi feita, fora de nós, sem a nossa participação! Agora Deus nos anuncia estas Boas Novas, e aguarda apenas que todos os que haverão de se salvar, creiam! Sim, nossa Salvação vem de Deus,“não de obras, para que ninguém se glorie” [Efésios 2:9].

Quão humilhante isto é para o homem que crê poder construir o próprio caminho para o estado eterno! Quão difícil para todos os soberbos e hipócritas que desejam fazer de si mesmos seus próprios deuses! Mas igualmente quão maravilhoso é para os fracos, quão maravilhoso para os cansados e pecadores! Ouça-me o cansado, ouça-me o aflito, ouça-me o pobre de espírito, ouça o chamado da Graça que proclamo: há esperança para o pior dos pecadores, pois Cristo não veio para os sãos, mas para os doentes; não para chamar os que se consideram justos, mas para chamar os pecadores ao arrependimento [Mateus 9:12-13]. A Salvação de todo o que crer já foi feita, o Senhor Jesus Cristo já completou-a no Calvário, pendurado no madeiro, tomando sobre Si as nossas dores e recebendo a paga pelos nossos pecados. Sim, “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus. Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” [2 Coríntios 5:21]. Oh, como é doce e suave a promessa de nosso Celeste Rei! Quão próxima e acessível está a estreita porta que leva ao estreito caminho para a morada eterna na Jerusalém Celestial! Que imensa liberdade recebem os que crêem em Cristo: são libertos dos seus pecados e das pesadas exigências dos ensinos dos homens! Que fardo terrível cai de nossas costas ao sabermos que o Senhor já comprou nossa Salvação e que somente precisamos crer para sermos salvos! Que grande peso podemos deixar aos pés da Cruz! Quão grandes são a sabedoria e o amor de Deus, pois Ele escolheu a pureza e a simplicidade do arrependimento e da fé verdadeiros para trazerem sobre o pecador o Seu perdão e favor eternos.

Que o Senhor nos leve a curvarmos nossas cabeças em submissão e arrependimento; que o Senhor nos leve a abandonarmos nossa justiça própria e confessarmos nEle que o Cristo morto por nós e ressurreto para a Glória, é o Senhor de nossa Salvação; que nEle foi consumada a nossa morte por causa de nossos pecados e que somente nEle está toda retidão que precisamos oferecer a Deus. Confessemos nossa necessidade, nossa pecaminosidade e incapacidade, e busquemos-nO com coração quebrantado e arrependimento verdadeiro. Somente assim receberemos dEle a bênção de sermos feitos Seus Filhos, de sermos aceitos como justos diante dEle, de termos Seu favor, de termos Seu Espírito habitando em nós e, por isso, seguramente esperaremos o dia em que nossa alma imortal, em um corpo ressurreto e glorificado, habitará com o Senhor, na Jerusalém Celestial, para sempre e sempre.

Esperança em Tempos de Apostasia – Parte 1

Esta nova série de artigos do Jardim Clonal tratará da Esperança da Igreja em Tempos de Apostasia. Serão apresentados, em várias edições, estudos em escatologia (comparando o que os textos da Epístola de São Paulo aos Romanos capítulo 11, do Livro do Profeta Daniel Capítulos 9, 11 e 12, do Evangelho de São Mateus capítulo 24, das Epístolas de São Paulo aos Tessalonicenses, da Epístola aos Hebreus e do Livro de Jeremias podem nos ensinar sobre a decadência da Falsa Igreja, a Apóstata que se deita com a Mãe de Todas as Abominações - bem como sobre a vitória e progresso da Verdadeira Igreja, a Pura Noiva de nosso Senhor Jesus Cristo). Oremos para que o Senhor nos abençoe nestes estudos, para que Sua Palavra seja apresentada aqui pura e límpida, sendo refrigério para nossas almas em tempos trabalhosos e fonte perene de esperança e forças levando-nos a conhecermos, pela Graça de Cristo, o poder das palavras do Apóstolo Paulo quando diz: já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim [Gálatas 2:20].

A Fé e a Piedade dos Puritanos

Algumas vezes, nos círculos teológicos da Internet, a Igreja Congregacional Kalleyana tem sido chamada de Igreja Congregacional Puritana. A razão disto é que Robert Reid Kalley tinha todas as características de um Puritano do século XIX, características as quais temos lutado para resgatar em nosso meio desde que iniciamos o processo de Reforma em nossas congregações. Processo este que, pela Graça de nosso Senhor, deu à luz a nossa denominação. A este respeito, o tema número 32 de um de nossos Símbolos de Fé (chamado Reflexões Bíblicas) diz que “o Puritanismo pode ser considerado um dos mais sublimes e santos modelos de vida cristã de todos os tempos”. Esta afirmativa não é, em nada, exagerada. Portanto, ainda nos falta muito para sermos realmente uma Igreja Puritana. Contudo, peço ao Senhor que não nos permita esmorecer, mas que nos dê, pela Fé em Cristo, uma porção do Seu Espírito como a que foi derramada sobre aqueles Santos homens do passado.

A teologia e a piedade Puritanas encontram poucos pares em toda história da Igreja. Como um movimento, o Puritanismo teve mais influência sobre a história do Protestantismo do que qualquer outro grupo isolado. A sua teologia moldou-lhes uma atitude ante o mundo que é a perfeita expressão da doutrina calvinista da Soberania de Deus. Eles realmente viviam como quem crê em um Deus que é Todo-Poderoso e ordena todas as coisas para o bem daqueles que amam ao Senhor, daqueles que são chamados segundo o seu propósito [cf. Romanos 8:28]. Um de seus lemas - vincit qui patitur (o que persevera no sofrimento, conquista) – demonstra quão firme era a expressão de sua Fé. Uma firme crença no cuidado e nas promessas de Deus, a qual é visível:

  • Na dedicação com que escreviam seus longos livros - plenos de conhecimento teológico e de devoção pessoal;
  • Na forma como pregavam – escravos do texto Bíblico, porém entregues com todo o seu ser ao sermão que proferiam;
  • Nas suas batalhas no Parlamento - para que a Lei do Estado fosse a mais próxima expressão da Lei de Deus;
  • E nas suas lutas nos campos de batalha - para que os monarcas tiranos e corruptos não dominassem sobre o povo e sobre a Igreja.

É verdade que muitas dessas vitórias foram transitórias, contudo, como podemos ver na história do Reverendo Puritano Robert Kalley, aquelas poucas vitórias que não são transitórias colaboram para o progresso do Evangelho de tal maneira que obscurecem até as inúmeras derrotas que os Puritanos usualmente sofriam. Porque, no sacrifício amoroso que esses homens fizeram por Cristo, gerações e gerações foram beneficiadas: dos ensinos dos Puritanos ingleses do século XVI surgiu a bela obra do Rev. Jonathan Edwards no século XVIII, renomado como um dos três maiores teólogos da Igreja, ao lado de João Calvino e de John Owen. E nas obras de Jonathan Edwards e John Owen nos foi legado o precioso entendimento da soberana obra do Espírito de Deus, que em tempos de apostasia, opera três grandes obras da Graça - preserva um remanescente para Glória de Deus, reaviva o povo de Cristo e fomenta a Reforma da Igreja e do mundo. E todas estas operações do Senhor por meio desses servos encontra impulso na firme crença Puritana de que nem todos os sínodos do inferno em conjunto podem prevalescer contra a Igreja de Cristo [cf. Mateus 16:18]. Foi esta firme Fé que preparou o coração dos grandes missionários do século XVII em diante e que deu força às palavras de grandes pregadores do século XIX, como William Wilberforce, que comumente instruía aos Cristãos, pela Palavra, a não ver o mundo como um navio naufragando e do qual as almas dos homens têm de escapar, mas como propriedade adquirida de Cristo, a cujo reino a terra e sua plenitude pertencem [cf. Mateus 28:18, Atos 2:34-35].

Como examinamos mais detidamente em um texto passado do Jardim Clonal, aquilo que cremos molda nossa moral - nossa prática de vida é um reflexo de nossas doutrinas. Pois a Palavra de Deus e a alma humana formam um conjunto perfeito, uma vez que a alma foi criada para que a Palavra habitasse nela. Portanto, qualquer distorção na Palavra, qualquer falha na pregação do inteiro conselho de Deus, gerará uma falha na alma. Ora, as doutrinas Cristãs pregadas desde os tempos Apostólicos sofreram terríveis ataques no século XX, e, com isto, a esperança e a vida Cristãs foram terrivelmente afetadas – e, portanto, a alma Cristã foi terrivelmente afetada. O Dispensacionalismo, por exemplo, é uma doutrina que inexistia até o século XIX; é oriunda de pretensos arroubos proféticos e pesadelos - forjada aos pés do herético fundador de seitas chamado Edward Irving. Antes de prosseguir, lembremo-nos de que Satanás é astuto e muito ardiloso em suas armadilhas. Digo isto porque costumamos pensar que uma vez refutada a falta de bases bíblicas- que é a divisão arbitrária das dispensações deste falso ensinamento - e uma vez refutado o absurdo a respeito das múltiplas voltas de Cristo e ressurreições, esta heresia está eliminada. Pensemos no que, comumente, dizem as Escrituras, ao provarmos por elas que:

1) uma só promessa (ou seja, um só plano de redenção em Cristo) para a qual todas as Alianças (ou Testamentos) de Deus apontam [cf. Efésios 2:12] - em lugar da errônea visão Dispensacionalista que propõe vários pequenos sistemas com promessas próprias e dois grandes planos (um para Igreja e um para Israel) com promessas diferentes;

2) um só povo de Deus, pois a Igreja sempre subexistiu oculta em Israel e, uma vez tendo sido revelada, é anunciada como parte da mesma Oliveira à qual tantas profecias do Velho Testamento se referiam e que era tida como símbolo do verdadeiro Israel - porque nem todos de Israel eram verdadeiros Israelitas, e nem todos filhos de Abraão segundo a carne eram filhos de Abraão segundo a promessa [cf. Romanos 9:6-8; 11:17-24; Gálatas 6:16];

3) muita inconsistência nas afirmações dispensacionalistas. Por exemplo, na Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, Capítulo 15, versículos 51 a 53, o Apóstolo nos diz que todos seremos transformados ao ressoar da última trombeta. Os dispensacionalistas dizem que esta trombeta é a do “arrebatamento secreto”. Porém, o Evangelho de São Mateus no Capítluo 24, versículo 31, nos fala de outra trombeta que soará durante uma Grande Tribulação em Jerusalém. Para o dispensacionalista, a trombeta de Mateus soará sete anos depois da última trombeta, a qual Paulo se referiu. É obviamente um absurdo que haja uma outra trombeta depois da última.

4) somente uma segunda vinda de Cristo, segundo a Escritura. Este evento pode ser chamado de parousia, epifania ou revelação, o que é claramente compreendido pela comparação dos textos parelelos sobre este acontecimento, e onde podemos notar, pela ordem e descrição, que tratam de um único evento [ cf. Mateus 24:3; 1 Coríntios 15:23; 1 Tessalonicenses 3:13, 4:15,16 e 5:23; 2 Tessalonicenses 2:1,8; Tiago 5:7; 2 Pedro 3:4 e 1 João 2:28]. Há ainda, a afirmação clara do versículo 28 do Capítulo 9 da Epístola aos Hebreus, onde está escrito que Cristo aparecerá uma segunda vez. Não que nosso Senhor aparecerá uma segunda e uma terceira vezes, mas apenas uma segunda vez. Aparição esta que não é em nada secreta, mas com voz de arcanjo e com a trombeta do Senhor, todo olho o verá, sendo esta parousia também chamada de o dia do Senhor, dia tantas vezes citado na Escritura [cf. 2 Tessalonicenses 2:1,2; Apocalipse 1:7, Atos 1:11] o que contraria mais uma invenção dispensacionalista. Igualmente, a Escritura nos fala de só uma ressurreição,de ímpios e justos, exatamente no dia do Senhor [cf. João 6:39-40, 44, 54; 11:24; Mateus 13:30].

Então, todo o fermento dispensacionalista estaria eliminado. Porém, isto não é verdade. O maior estrago que o Dispensacionalismo fez foi também o mais sutil: contaminou a posição escatológica histórica da Igreja com um injustificável fatalismo. O Dispensacionalismo transformou o Reino de Cristo revelado na Nova Aliança que, segundo o profeta Daniel, é como uma rocha que despadaça os outros reinos e cresce, se tornando uma montanha até tomar todo o mundo [cf. Daniel 2:35], em um reles plano B de um deus frustrado em seus planos de transformar Israel em uma potência teocrática mundial. O Dispensacionalismo transformou a esperança Cristã de cumprir a Grande Comissão e de ver uma Igreja como a dos Puritanos – perseguida, porém capaz de transtornar o mundo pela Santidade, Poder e Palavra de Deus - em uma esperança de ser como que repentinamente resgatado de uma igreja derrotada pelo mal. A influência dispensacionalista habituou os homens à acomodação. Ao contrário do que este falso ensino diz, a Escritura nos mostra que o Senhor Jesus já é o Rei dos Reis cujo reino já chegou [cf. Marcos 1:15; Atos 17:7; Apocalipse 1:5], cujos inimigos estão sendo pouco a pouco derrotados e postos por Seu estrado [cf. Atos 2:33-36] e cuja parousia, para a qual devemos estar sempre preparados, não deve ser esperada para logo [cf. Mateus 25:1-9; Lucas 19:13; 2 Pedro 3:1-15] como se a batalha pela manifestação da Glória de Deus na terra não merecesse nossos esforços. Devemos expurgar de nossas mentes as influências do falso ensino e nos aprofundarmos nesta mesma Fé que os Puritanos e Reformadores receberam da Bíblia, pelo Espírito de Deus. Está escrito na Reflexão número 53, do Símbolo de Fé Kalleyano, que: “o Reino de Deus é o domínio da Sua Vontade em todos os setores desta vida, e é promovido pela expansão da Igreja em todo o mundo”; portanto, em humildade e contrição, com orações e súplicas, temos o dever de alargar os limites da nossa esperança no progresso da Igreja, ainda que cientes de que o joio crescerá no meio do trigo no campo do mundo até o fim dos tempos. O já citado grande Teólogo e Puritano congregacional John Owen, (cujas obras foram as primeiras a serem traduzidas pelo Rev. Kalley para o Português, enquanto ele ainda encontrava-se na Ilha da Madeira), disse a respeito da esperança da Igreja, em um de seus sermões: Ainda que a apostasia se mostre ao nosso redor, nossa causa permanecerá tão verdadeira, certa, e infalivelmente vitoriosa, quanto é verdadeiro o trono de Cristo à mão direita de Deus. O Evangelho sempre será vitorioso. Este grande conforto refrigera minha alma.” Este sentimento e certeza, que foram contaminados pelas heresias do último século, precisam retornar à Igreja, precisam retornar à cada um de nós. Porque, se tivéssemos ao menos um vislumbre da Glória futura da Igreja segundo as promessas da Escritura, então um grande conforto e um grande poder para ação habitariam nossas almas, tendo em vista que a certeza de fé inpira a operosidade. A Escritura promete que as fiéis testemunhas conservadas pelo Senhor em meio à apostasia e à perseguição, quando aparentemente derrotados, ressuscitarão dos mortos [cf. Apocalipse 11:3-13]. Necessitamos crer no chamado e eleição dos quais a Igreja é alvo, porque a face do Senhor resplandece sobre nós, e a habitação do Seu Espírito nos dá a certeza da eficácia de quem opera o nosso querer e efetuar. Então, as profecias da Escritura deixariam de ser um jeito de advinhar as notícias do jornal de amanhã e se tornariam uma rica fonte das promessas e conhecimento da Aliança de Deus conosco. Lamentemos, amados irmãos, lamentemos nossa ignorância quanto à Palavra do Senhor, pranteemos nossa falta de fé, nossa negligência e falta de dedicação, arrependamo-nos da mente carnal com que temos lidado com este assunto e do modo como temos nos deixado levar pelas sutilezas de Satanás. Quão pecaminoso é clamar Maranatha – vem, Senhor Jesus! sem, na verdade, dedicarmo-nos a submeter o mundo ao Evangelho, de modo que a Noiva esteja completa e preparada para receber seu Amado. Ah, se o Senhor nos levasse à contínua oração e obediência, e à clamar pelo mesmo conhecimento das promessas da Escritura, os quais aqueles Puritanos do passado tiveram! Ah, se o Espírito de Deus nos fizesse recuperar o senso da proeminência da Glória do Senhor e da preeminência de Cristo em todas as coisas! Então entenderíamos que o Senhor não se deixa escarnecer e que, portanto, nunca desamparará a Igreja - porque Ele ama ao próprio Nome! Quanto precisamos, arrependidos, nos humilharmos e prantearmos por tudo o que a Igreja perdeu! E nos purificarmos de todo erro e impiedade. Só assim veremos o Senhor operar novamente no nosso meio aquela firme Fé dos Puritanos e todo aquele ardor em lutar para encher toda a terra do conhecimento de Deus e na batalha pela Glória do Nome de Deus em todas as nações.

Incapacidade Científica, parte final

Esta é a última edição desta série de estudos sobre a relação entre a visão de mundo da sociedade descristianizada e a cosmovisão bíblica. Já mostramos as falhas da visão de mundo pós-cristã, e como seu fundamento científico não é tão confiável quanto seus proponentes afirmam ser. Já mostramos também o que a Escritura é suficiente e necessária para todo Cristão, que a Palavra está intimamente relacionada com o ser de Deus e que é o meio apontado pelo Senhor para a operação a Redenção em Cristo no coração dos homens e conseqüentemente, na sociedade. Agora, estabeleceremos um diálogo que partirá do conhecimento da Escritura em direção à cultura que nos permeia, com o objetivo de esclarecer o profundo e espiritual sentido de Gênesis e sua perfeita racionalidade, usando (e buscando equipar os Cristãos para que saibam usar) linguagem e comparações acessíveis ao homem contemporâneo.

Um Esboço de Gênesis

Primeiro, devemos compreender parte do proveito da posição desta narrativa, como primeiro capítulo da Escritura. Dizem os incrédulos: Seria melhor começar de outra forma, este relato da criação não me convence; alguns deles (ainda com menos temor e mais tolice) até sugerem: Poderia começar com provas sobre a existência de Deus e com métodos que permitissem comprovar isto. Porém a Escritura nos diz que sem fé é impossível agradar ao Senhor e que “é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” (Hebreus 11:6). Assim, a Escritura requer que quem se aproxima de Deus creia que Ele existe; quem se achega à Bíblia deve assumir, anteriormente, que Deus existe e que Ele recompensará esta busca – de outra forma é inútil aproximar-se da Escritura, pois o homem incrédulo, quando de coração endurecido, não será capaz, pela sua natureza perversa, de submeter-se ao que o Senhor ensina em Sua Palavra. Antes, o incrédulo, com seu entendimento entenebrecido, entra em uma disputa com o texto da Bíblia, julgando-se mais sábio e, com curiosidade maligna, inquire a Escritura para destruição e não para aprendizado. Por isso a Escritura, em seu primeiro versículo, diz apenas “No princípio, criou Deus...” - para que o coração humano não seja incitado ao erro de enveredar-se em pecaminosa curiosidade, mas para que seja simplesmente instruído a crer em Deus como Verdade inicial para reflexão sobre a cosmovisão Bíblica. Munidos desta compreensão obtida pela luz de Hebreus 11:6 e Gênesis 1:1 podemos perceber o início da Escritura como algo mais do que uma simples narrativa da Criação do universo, pois, em Gênesis:

1) Moisés emparelhou e diferenciou, propositalmente, as antigas narrativas (Gênesis 5:1, cf. Números 21:14) da Verdadeira Criação (possivelmente preservadas por profetas antediluvianos como Enoque, e pósdiluvianos da descendência de Noé) e as figuras e linguagens do antigo Oriente próximo. Desta forma, relatos míticos como o Enuma Elish, a Epopéia de Atrahasis e a Epopéia de Gilgamesh, são corrigidos e contrabalanceados pela Verdade da Escritura. O fato de que haviam essas histórias sobre a Criação no Oriente próximo, e de que elas guardavam certa semelhança com a base sobre a qual Moisés escreveu Gênesis, demonstra como antigas narrativas da Verdadeira Criação foram preservadas não só junto aos Hebreus, mas a todos os povos. Porém, em tais relatos míticos estrangeiros, os homens acrescentaram e alteraram a Verdade para favorecerem seus pecados. Moisés, em Gênesis, resgata a Verdade antiga mantendo a comparação com os mitos da época – de um modo que nem a Verdade foi subtraída em nada, nem a Escritura foi composta de uma forma completamente alheia ao povo. Aparentemente isto cria um hiato entre a linguagem de Gênesis e a nossa cultura, que não possui mais os símbolos e figuras dos Hebreus e do antigo Oriente. Contudo, segundo a inspiração do Santo Espírito, Moisés teceu Gênesis na forma de uma defesa da concepção de vida Cristã contra as diversas formulações filosóficas representadas por estes mitos, representações filosóficas que são basilares aos diversos sistemas de pensamentos não-Cristãos, inclusive aos que existem hoje. Como já notamos, essas mitologias haviam derivado da Verdadeira história da Criação e, por isso, podemos afirmar que suas verdades essenciais devem seus elementos à Verdade Revelada de Deus. Portanto, ocorre entre Gênesis e estes mitos de Criação, o mesmo que demonstramos, na Edição número onze, ocorrer entre a cosmovisão Cristã e a Científica: a Ciência acaba devendo ao mundo Cristão e à natureza de Deus todas as suas bases. Como os homens torcem as conseqüências dessas premissas para fugirem da condenação que o desenvolvimento lógico delas anuncia (condenação para todo o que não se submete ao Senhor), as visões de mundo produzidas por eles são sempre autocontraditórias. Por exemplo, no capítulo 1, os versículos 1, 3, 9, 11, 14, 20, 24 e 26 nos dão base para destruirmos os argumentos das filosofias panteístas (acreditam que seu deus e o universo são uma só coisa), e os versículos 14-18 nos instruem sobre como eliminar as premissas das cosmovisões que idolatram, direta ou indiretamente, os corpos celestes. É deste ponto que concluímos que Moisés nos legou mais do que um simples relato da Criação: Gênesis formula a base apologética da defesa da Fé Cristã – a descrição de um padrão interno à Fé, um padrão que inicia com um salto de confiança ao assumir como verdadeira uma proposta Revelada por Deus na Escritura, uma proposta que sustenta a lógica do sistema, permite a dedução de outras verdades e se retroalimenta das evidências do sistema (pelo fato do sistema não se refutar em nenhuma de suas partes).

2) Há uma repetida e constante descrição dos termos da Aliança ou Pacto firmado pelo Soberano Rei do Universo com Seu Povo Escolhido. As narrativas de Gênesis ilustram a Lei de Deus (que regula a Aliança) através da aplicação histórica e do relato da origem de cada preceito. Em Gênesis 2:2-3 temos o princípio Sabático; em Gênesis 17:9-14 temos, na circuncisão, o princípio da confissão pública e corporativa de fé na admissão de um homem ao Povo da Aliança, assim como o princípio de que cada membro do Povo pertence plenamente ao Senhor – que será o provedor de seu crescimento. Note, ainda por paralelismo, que os versos do capítulo 1 de Gênesis também denotam esta noção Pactual de Deus; especificamente elas introduzem o conceito de que Deus age segundo a figura de um Suserano, ou seja, de um poderoso Rei cuja nação se apodera das relações exteriores de uma nação menor, para segurança e provisão da mesma, fazendo dela uma nação de servos e de seu rei, um vassalo. Nos três primeiros dias da Criação, Gênesis relata Deus forjando um reino a ser dominado. São criados os céus empíreos - a habitação do trono de Deus e dos Santos anjos, a imensidão do espaço exterior e a massa desforme que seria moldada em nossa habitação (isto só no versículo 1). Segue-se a criação da Luz (Gênesis 1:3) - uma superestrutura de luz ainda não instanciada em nenhum veículo (o sol e as estrelas só seriam criados no quarto dia) porém já nomeando o dia e a noite segundo a separação que Deus faz entre esta luz e as trevas que “haviam sobre a face do abismo” (Gênesis 1:2). O Senhor cria ainda, em seqüência, o firmamento (Gênesis 1:6), os mares e a terra seca (Gênesis 1:9) e a vegetação (Gênesis 1:11). Estes elementos representam a Provisão de Deus em suprir um reino, um ambiente a ser governado, uma nação de servos. Nos três dias seguintes, o Senhor provê os governantes: luzeiros para “governarem o dia e a noite” (Gênesis 1:18); os animais para multiplicarem-se, dominando seus ambientes (Gênesis 1:20-22), e o homem para dominar “sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam” (Gênesis 1:26;28; Salmo 8:6-8). Assim o Senhor aproxima-se da própria Criação, desde seus primeiros momentos, de forma Pactual. Deus faz-se a Majestade dominante (Salmo 8:1;3) e evidente sobre toda a Criação, a quem empresta Glória na qual é louvado. Como poderoso Rei, Deus institui governos e leis sobre o reino dominado, onde cada governador é seu vassalo. Vemos, no Salmo 19 nos versículos de 4 a 6, Deus sendo louvado pela obediência do sol em cumprir seu caminho diário, segundo o Senhor o instituiu a fazê-lo. Da mesma forma como o sol governa o dia (Gênesis 1:20) e, como vassalo, submete-se em seu domínio ao Deus Criador, segundo os termos de uma Aliança criada e mantida somente por Deus, assim Adão foi instituído governador sobre a Criação, para submetê-la consigo mesmo ao domínio de Deus, segundo os termos de uma Aliança criada e instituída por Deus. Contudo, Adão foi feito à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26). Ele foi feito representante perfeito e ideal de Deus, corpo e alma, feito para relacionar-se com o Criador, para compreender e responder ao Pacto que Deus firmou com ele, andando em santos caminhos e reinando de forma benevolente. Diferente de tudo o mais na Criação, o ser humano foi criado como ser pessoal e autoconsciente, e não era impelido por nada em sua natureza, nem para obediência nem para desobediência. Teologicamente, chama-se a Aliança de Deus com Adão de Aliança das Obras, porque a permanência do estado de plenitude em Cristo, desfrutada por Adão, dependia de uma perfeita e absoluta fidelidade ao Senhor. Não havia misericórdia para o pecador, apenas condenação irrevogável: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gênesis 3:17). E Adão quebrou este Pacto com o Rei e Deus Eterno, tomando o fruto oferecido por Eva (Gênesis 4:6); nisto ele selou uma outra Aliança que perdura até hoje: a comunhão da carne com Satanás, o “deus deste século” (2 Coríntios 4:4). Que infeliz este Pacto com o príncipe da morte e das trevas! Porque em Adão todos caímos (Gênesis 6:5; 1 Coríntios 15:22; Romanos 5:12,19), pois, sendo ele governador de toda Criação, seu Pacto com Satanás foi um conluio entre o império das trevas e o domínio do homem intentando uma rebelião contra o Reino da Luz. Neste rebelião a própria Criação manifesta o caráter do Maligno e oculta a perfeição da Glória de Deus para a qual foi feita (Gênesis 3:17-19). Porém toda esta rebelião é imediatamente abortada quando, para Glória de Seu Santo Nome, Deus revela, na falência da Aliança das Obras, o Pacto da Graça. O Senhor não destrói Adão e Eva imediatamente, mas conserva-os na promessa da revelação futura do Mistério da Piedade que Redimirá a Criação e esmagará o astuto Enganador que seduziu Eva à desobediência (Gênesis 3:15). O conhecimento da Divina Aliança da Graça é o fio que conduz ao entendimento da Soberana ordem do Senhor em executar Seu plano de Redenção através da história. Somente na compreensão de que o Senhor é Javé, o Deus da Aliança que age por amor ao próprio Nome, repousa a confiança na Provisão e cuidados d'Aquele que preparou e preservou um reminiscente puro no meio de Israel corrupto e que tem feito todas as coisas cooperarem para a congregação e santificação de uma comunidade eleita e separada que peregrina pela terra rumo à Jerusalém Celestial. Somente na compreensão da Aliança da Graça de Deus podemos vislumbrar a perfeição da obra de Cristo, o “Mediador de uma nova aliança” (Hebreus 12:24) na qual todos as sombras do Velho Testamento se tornam claras em seu sentido, e a Graça se manifesta desvelada. Na Aliança da Graça o pecador pode se aproximar de Deus, confiado em Cristo, tendo o sacrifício dEle por expiação de seus pecados e tendo a perfeita obediência do Senhor (que venceu onde Adão falhou) como garantia da herança com os Santos na Glória, segundo a união de todos os Cristãos no Corpo de Cristo.

Alguns questionamentos comuns a respeito de Gênesis

Tendo já vislumbrado parte da profundidade de significados do Livro de Gênesis, lembrando que em tantos outros aspectos já nos confrontamos com a perversão do conhecimento humano em comparação com a perfeição do conhecimento Divino, peço ao Senhor que cada leitor esteja, cada vez mais, adquirindo uma mente espiritual, segundo a Graça de Cristo Jesus, para compreender quão mesquinhas são as questões levantadas pelos altivos homens pós-Cristãos contra este Livro da Escritura. Contudo, para que não se nos acusem de não termos respostas, e para munirmos nossos Cristãos de pontos de contatos úteis em conversas comuns com não-Cristãos, pontos que podem levar às questões mais profundas que denunciam o pecado e mostram a necessidade de arrependimento do pecador. Por estes motivos, responderemos alguns destes questionamentos:

1) Foram seis dias literais de Criação?

A forma de interpretação bíblica que se fez presente em todas as igrejas sadias na História, (a qual foi exaltada pela Reforma) é aquela que toma o texto no sentido mais natural possível, segundo a linguagem da época em que foi escrito, segundo a intenção do autor e o contexto da Escritura e do povo a quem aquela Escritura foi direcionada e, ainda, segundo o estilo literário da porção avaliada. Por isso, é importante notarmos aquelas diferenças enunciadas na última edição de nosso periódico, a respeito dos estilos do livro de Apocalipse e do livro de Gênesis. Apocalipse é enunciado como profecia simbólica, muitas vezes puramente alegórica. Gênesis, no entanto, sempre que referido na Escritura, é referido como livro histórico (Mateus 19:4-6, Marcos 10:6-8, Atos 17:26, Romanos 1-2,5:12-21,16:20, 1 Timóteo 2:13, 1 Coríntios 11:8, etc.). Não é difícil percebê-lo quando vemos que existe uma progressão no livro, relatando Adão e Eva (cuja existência é questionada pelos aduladores do cientificismo), depois Caim e Abel, Sem e daí aos povos Semitas até a vida de Abraão (que é historicamente inquestionável) e daí em diante – não há uma divisão no livro, ele simplesmente segue a narrativa de Adão até as 12 tribos de Israel; e quando vemos que não há na Escritura casos onde elementos decididamente reais (como Deus, o dia, a noite, a luz, os animais, etc.), sejam citados em um sentido casual misturados com elementos simbólicos (por exemplo, Deus não aparece como Deus em nenhuma parábola, mas é representado simbolicamente, como quando é representado como o “dono da vinha” ou como o “pai do filho pródigo”). Gênesis é, claramente, um livro histórico. Assim podemos entender Gênesis simplesmente de maneira literal (desde que, é claro, atente-se e pondere-se o uso de figuras de linguagem comuns, como o antropomorfismo). Os dias da Criação, por exemplo, quando estudados cuidadosamente, nos conduzem a concebê-los como dias literais. A palavra yom, que em hebraico significa dia, é usada, quanto aos dias da Criação em Gênesis, exatamente com seu sentido mais óbvio: de um dia. Um dia de 24 horas? Sim, como vemos pela repetição da frase tarde e manhã em todo relato da Criação. Se, como alguns, influenciados por idéias liberais (muitas vezes sem sabê-lo), têm afirmado, esses dias equivalessem a “Eras Geológicas” (períodos de milhões de anos) então teríamos uma grande dificuldade em explicar o que é uma “manhã” e uma “tarde” em uma era geológica. Este é um outro exemplo de interpretação da Escritura com base na Ciência; a concepção sobre a Bíblia é alterada para se amoldar à Ciência. Porém a Ciência é falha, como estabelecemos no início deste estudo e, enquanto alguns cientificistas dão a própria vida para defenderem uma Terra com bilhões de anos, outros apresentam teorias que apontam para um planeta com não mais que 10.000 anos de existência. Soma-se ainda, ao argumento a favor de que Gênesis ensina uma criação em seis dias de 24 horas o fato de que Deus descansa no sétimo dia. Teria Deus descansado durante toda a “sétima Era”? E o que significaria isto, que era foi esta? E, se Deus descansou durante um período indeterminado de tempo, sem relação proporcional com os outros períodos de tempo (pois uns seriam maiores do que os outros), que sentido tem evocar este fato para estabelecer que nós descansemos um período proporcional de dia de 24 horas em cada sete dias de 24 horas baseados no fato de Deus ter descansado um dia em sete? (cf. Êxodo 20:8-11).

2) Porque Deus criou o mundo em seis dias e não instantaneamente?

É muito comum as pessoas questionarem: caso Deus seja onipotente, porque Ele demorou 6 dias para criar o mundo? A resposta é muito simples. Como em tantas outras partes da Escritura, Deus acomodou Seu poder e ação ao entendimento humano porque desejava comunicar-nos algo. No versículo 1, vemos que o Senhor criou os céus instantaneamente (que céus, como já dissemos, é muito acertadamente compreendido como os céus empíreos, a esfera de existência celestial onde habita o Senhor e Suas hostes de Anjos). Foram feitos imediatamente perfeitos. Não havia necessidade de um criação temporal dos céus porque eles não foram feitos para que os contemplássemos e, meditando neles, aprendêssemos sobre o Criador. Porém a terra foi feita para isto, nosso mundo foi, desde o princípio, formado com o objeto de ser uma Revelação sobre o Criador, um Livro escrito em matéria que, quando lido pela imagem de Deus no homem, falasse do próprio Deus, Sua Glória e Seu poder. Portanto, Deus criou o mundo em seis dias para comunicar-nos realidades espirituais e instruir-nos no conhecimento dEle.

3) Como era o mundo na época da Criação?

A Ciência e a Escritura concordam que a Terra também era um lugar muito diferente na sua juventude. Porém os dogmas racionalistas e materialistas do cientificismo forçam a explicação e a investigação dessas hipóteses ao campo do observável nos dias de hoje. A Escritura, no entanto, trazendo testemunho da Criação, afirma o que o cientificismo não poderá alcançar jamais, e desenha um cenário intrinsecamente mais consistente e crível do que qualquer coisa alardeada pela falsa ciência até os dias de hoje! E isto é de tal maneira impressionante que, por exemplo, a ordem de Criação dos corpos celestes e das leis físicas, foi aceita pela Ciência exatamente como narrada em Gênesis, por necessidade lógica e teórica, apesar de não ser possível comprová-la empiricamente. No primeiro versículo, Deus cria, a partir do nada, os “céus” e a “terra”. Esta Terra era “vazia e sem forma” e estava sobre um abismo. Entende-se daqui uma massa estranha, emergente de um caos inóspito, por ação do Criador; esta massa estava solta sobre o vazio espacial. Esta indefinição é referida por Moisés também como “águas”, no sentido de que essa ordem primordial é tão indistinta quanto uma coleção de mares invadindo e ajeitando-se sobre uma terra antes represada ou como uma massa mole de argila nas mãos de um habilidoso escultor. Sobre esta massa o Espírito de Deus inspira a ordem, e Ele mesmo a preenche e sustém. Na medida que a Criação prossegue, mais e mais ordem se expressa, seguindo-se, entretanto, este princípio observado: a ordem é lógica e necessária, é demonstrada em uma crescente complexidade e estabilização e expressa-se na Providência e Sabedoria de Deus em usar tanto meios diversos, quanto em agir imediatamente sobre o mundo. O resultado primário é uma terra paradisíaca em todos sentidos, tanto na geografia quanto no clima, tanto na distribuição dos animais quanto na ausência de violência expressa no fato de que todos se alimentavam apenas de vegetais. Possivelmente, havia menor variedade de animais, de modo que Adão pudesse dar nomes a todos eles e de modo que todos estivessem presentes no Jardim. É como se cada animal de hoje possuísse um antepassado que era o protótipo geral de todos os animais semelhantes a ele; por exemplo, é como se todos seres aparentados do cavalo possuíssem um protótipo eqüestre que era o cabeça, o primeiro, o concentrador genético, de todos os animais desse tipo. Ao menos é o que se pode entender da expressão hebraica baramin, usualmente traduzida como tipo ou espécie (Gênesis 6:19), e pelo contexto do Livro. Adão mesmo era o protótipo genético de todos os seres humanos; porque ele era o cabeça da espécie, e dele vieram todas as raças: brancos, negros, amarelos. Ele continha em si toda a informação primordial necessária para derivar estas raças. Além disso, algo mais era diferente: não havia doenças, nem mal algum. Todos eram extremamente longevos, creio que tanto os homens (que poderiam viver 9 séculos!) quanto os animais. O que poderia ocasionar que alguns se tornassem verdadeiros gargantuas, como o chamado behemot – um enorme e fortíssimo ser parecido com um dinossauro descrito no Livro de Jó, capítulo 40. Tudo isto, porém, se degenerou pela contaminação do pecado que adentrou o universo por ocasião da desobediência de Adão e Eva - surgiram venenos, doenças, catástrofes ambientais. A Criação se volta contra o próprio homem, que deveria ser seu regente. E a morte reinou sobre a terra.

4) Com quem os filhos de Adão e Eva se casaram?

Adão era um homem que, segundo os padrões que a ciência atual criou, talvez fosse considerado até mesmo como outra espécie humana. Ele não possuía nenhuma falha genética, seu DNA não conhecia mutação. Ele era perfeito em tudo. Nele não havia doenças ou síndromes hereditárias, nem tendências ao desenvolvimento de doenças quaisquer. Na verdade, como respondemos na pergunta anterior, não havia nem sequer doenças antes de Adão pecar. Porém, não nos confundamos, havia dor. Por ocasião da queda, Deus fala a Eva: “multiplicarei as suas dores de parto”, portanto já havia dor antes da queda, havia algo a ser multiplicado. O que, aliás, faz com que compreendamos que a dor, de modo geral, não é algo ruim em si mesmo (mas algo que já fazia parte da boa criação de Deus). Contudo, as dores se tornaram aflitivas ao ser humano, como tantos outros “cardos e espinhos” que surgiram por conseqüência da desobediência. Voltando à questão levantada, é por causa da pureza genética (e da longevidade citada acima) que entendemos com quem os filhos de Adão e Eva se casavam: eles se casavam entre si. Não geravam prole defeituosa porque, pela total pureza genética de Adão e Eva, pela ausência completa de defeitos e qualidades negativas em seu DNA, seus filhos não tinham como herdar tais coisas. Portanto, não havia uma maior probabilidade de que uma determinada doença ou tendência destrutiva se manifestasse pelo casamento intra-familiar. Pela decadência da humanidade, conforme os frutos do pecado se tornavam mais evidentes na Criação decaída, é que foram surgindo degradações genéticas e doenças que impossibilitaram o casamento intra-familiar.

Conclusão

Depois desta longa jornada nestes embates sobre Gênesis, tenho a impressão de que passamos mais tempo expondo as bases de nossa Fé e suas aplicações, em contraste com a falta de bases da metodologia cientifica e de seus filhotes, do que falando efetivamente sobre Gênesis. A causa disto é que o problema dos falsos Cristãos, dos Cristãos débeis e das igrejas adoentadas, não está na Escritura em si, nem no que a Escritura diz. O problema está em seus espíritos. Porque suas mentes não se renderam de forma plena aos pés da Cruz, suas almas não abandonaram os sonhos e as lembranças do Egito - são pessoas que não desistiram de suas próprias idéias e experiências para aceitarem a Escritura como regra suprema e veredito final sobre todas as questões da existência. Ainda pensam como escravos e ainda querem as panelas de carne e os deuses cegos e manipuláveis daquelas terras malditas. E este não é exatamente um problema da era pós-Cristã: é simplesmente a constante ressurgência da tentativa de sintetizar o pensamento Cristão com alguma filosofia de determinada época - a ressurgência da covardia de não querer enfrentar o mundo, de não querer carregar a Cruz, de não querer perder tudo por amor a Cristo. Foi esta doença espiritual que acometeu os Coríntios no mais terrível grau, e contaminou aos Colossenses e aos Gálatas causando consideráveis perdas. Foi esta lepra interior que arrastou a igreja, séculos depois, em direção às pressões para alegorizar Gênesis de modo que se encaixasse na filosofia de Aristóteles – e lembremos que esta sincretização, especificamente, foi um forte assentamento para construção do trono Papal do Anticristo.

Por isto, convoco todos os amados leitores, sejam incrédulos, Cristãos fracos ou Cristãos já firmados em Cristo e na Palavra; convoco que contemplem Cristo em Gênesis, que contemplem comigo o anúncio final e constante do descanso eterno dos Santos. Basta seguir a estrada dos atos Soberanos de Criação e vê-lO, após seis dias de trabalho, demonstrar-nos a consumação dos séculos na figura do sétimo dia – o Sabbath do Senhor, o descanso de Deus. Porque tem existido um descanso prometido desde o sétimo dia da Criação (Gênese 2:2), um descanso no qual todas as gerações de desobedientes impenitentes jamais conseguiram entrar (Hebreus 4:6), ficando sem esperança, mas no qual aqueles que crêem serão bem vindos, para a vida (Hebreus 4:3). Ora, se mesmo Adão, arrependido, foi recebido na Graça, por causa de Cristo, porque hesitaria algum de nós em buscar perdão e retidão junto ao Senhor, com sincero arrependimento e humildade? Porque somos, se cremos na Salvação que vem do Senhor, convidados a aguardar com esperança e regozijo o cumprimento das promessas de Gênesis, de que nos uniremos com Cristo no nosso lar celestial (1 Pedro 2:11), para o qual devemos olhar constantemente enquanto marchamos, purificando-nos de toda malícia (por sabermos que seremos como o Senhor Jesus quando ele se manifestar). O crente, conhecendo as coisas que o esperam na eternidade, a si mesmo se purifica ... como é puro o Senhor (1 João 3.3). Se somos mesmo do Amado, reconhecemos a Soberana vontade de Deus, que nos dirige, como dirigiu a Adão, para unir-se com Ele no Seu descanso, para habitar com Ele em um incessante Sabbath. Ouvimos a Sua voz, e não nos escondemos, mas adoramos por cada Palavra da Escritura, que é Sobrenatural, que é Soberana em Deus, e vive em nosso Redentor para selar cada Filho da Aliança da Graça numa mesma união no Corpo de Cristo, preparando-nos para quando seremos, como Eva a Adão, apresentados como Noiva pura e imaculada ao amado Noivo (Apocalipse 21:2,9). Alimentemo-nos da esperança de Gênesis e busquemos em oração e súplica por todos os Santos, em toda dedicação e meditação na Palavra, lembrarmo-nos noite e dia de que nossa celeste esperança se equilibra em um prato, como uma balança, no contrapeso da aflição e do conflito contra o mundo, sendo ambos firmados, pelo centro, pendentes da Cruz de Cristo. Cristãos, portemo-nos como Igreja Militante que somos, não evitando a batalha, mas denunciando poderosamente o pecado e devastando, pelo poder da Palavra de Deus, todos os inimigos de nosso Senhor. Não aceitemos o clamor do mundo humanista a respeito de neutralidade religiosa e de sermos politicamente corretos, mas como Abraão, pela fé nas promessas do Senhor, edifiquemos altares na Canaan dos pagãos. Temamos todos, a Escritura é clara e a Lei de Deus perfeita: ou afirmamos, a todo custo, a mensagem do Evangelho e a condenação do pecador (exatamente como a Bíblia diz), ou estaremos dando ouvidos à mesma sedução que a Serpente instilou, quando no Éden: É assim que Deus disse? Ah, é certo que a Igreja não morrerá se comer do conhecimento do mundo. Deus sabe que no dia em que dele comerdes seus olhos se abrirão e vocês reinarão sobre toda a terra!

Não ouçamos a voz da Serpente! Que todo homem se afaste deste vil tentador! E seja, todo nosso coração e forças, ao Senhor Deus somente, porque dEle é toda justiça, e toda grandeza, e todo poder, e a sabedoria, e o louvor para sempre. Não atribuamos a nada, nem a ninguém, aquilo que é somente de Deus – porque toda a Glória pertence só ao Senhor que fez os céus, a terra e tudo o que neles há. Tanto nas mais impressionantes obras que nos conta Gênesis, quanto nas coisas menores e cotidianas, tenhamos compreensão de que tudo permanece ante a face do Altíssimo e, se não o Glorificamos em cada uma dessas coisas, nós as enchemos de trevas, e invertemos seu propósito; perdemos o reconhecimento da preciosidade de cada uma delas e pecaminosamente resistimos ao Espírito de Deus e deixamos de dar ao Autor da vida o Seu devido louvor.

Sujeitemo-nos ao Senhor, em todas as coisas, para louvor da Glória de Sua Graça, sempre. Amém.

Incapacidade Científica, parte 5

Deus e Sua Palavra, que é Vida e Razão, são inseparáveis

Ao Cristão só resta render-se à Escritura. Tanto nas situações nas quais temos cogitado nestas últimas edições (a respeito da relação entre a Teologia e a Ciência), quanto em qualquer outra situação. Uma vez que a Escritura declara a si mesma como Palavra inspirada de Deus (por isso inerrante e infalível), o Cristão só conseguirá pensar com coesão, mantendo uma salutar relação entre o universo descrito na Bíblia e o universo de sua experiência, se puder ver o mundo pelas lentes da Escritura. É pela Escritura que ele julgará o que é verdade e o que é mentira, o que é proveitoso e o que é vão. “Ora, mas a Escritura pode ser interpretada de diversas maneiras” dizem alguns adversários de nossa ortodoxia. Para eles, respondo: A Escritura dará todo o fundamento para a vida Cristã se interpretada de maneira verdadeiramente Cristã. E que maneira é esta? Pela ponderada e temorosa comparação da Escritura com a Escritura, dos textos mais claros com os textos mais difíceis, enquanto se mantêm em mente o objetivo de, em todos textos, fazer visível a obra expiatória e redentora de Cristo. Sim, em cada doutrina enunciada pelos Textos Sagrados há uma estrada que nos leva ao Senhor de nossa Salvação! Estudar a Bíblia apenas como guia moral e aprender dela algo que poderia ser igualmente aprendido e dito por um muçulmano, um filósofo grego ou um budista não é ouvir o que a Escritura realmente tem a dizer. Ouça o testemunho do Senhor Cristo Jesus em Lucas 24:27, “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.”. Neste versículo, nos é dito que Cristo expôs o que consta em todas as Escrituras a Seu respeito, desde os 5 primeiros livros (de Moisés) até os últimos livros (dos Profetas). Assim temos a prova de que toda a Escritura fala de Cristo: Ele é o fim da Revelação de Deus aos homens (Hebreus 1:1). Desde aí, compreendemos que todo o conhecimento das Santas Letras forma uma unidade e que não pode a Bíblia ser menosprezada em nenhuma de suas partes, mas deve ser perscrutada como um todo pelo crente – porque de toda a Escritura provém o alimento do seu espírito (Deuteronômio 8:3, Mateus 4:4). Todo conhecimento que não se coaduna com a inteireza do ensino da Escritura (segundo a revelação de Cristo), deve ser rejeitado, pois essa totalidade da Escritura é a única compreensão legítima e completa do universo. Compreensão que nos é dada e dirigida por Deus mesmo, e, portanto que não carece de adição alguma, mas é plena (2 Timóteo 3:16,17). Qualquer adição a esta perfeita trama da Verdade cria deformidades que corromperão sua estrutura, e terão conseqüências malignas sobre a crença e a prática daquele que assim proceder; porém, uma retidão de caráter será alcançada, mediante o Espírito de Deus, por aquele que submeter-se ao completo conselho da Palavra da Verdade. Afinal, o Espírito de Deus, tendo inspirado as Escrituras (2 Pedro 1:21) até sua completude, opera agora seu ministério de glorificar ao Senhor Jesus Cristo (João 16:14), em lugar de anunciar a Si mesmo ou a novas revelações (portanto em lugar de adicionar, ou subtrair, algo à Palavra Escrita ou à Palavra Encarnada). Afinal, o Senhor Cristo Jesus, como já dissemos, é o assunto e o cumprimento de todas Santas Letras. A Escritura é, portanto, o instrumento perfeito e final (2 Pedro 1:19, Hebreus 1:1, 2 Timóteo 1:17) para que o Espírito dispense a Graça do Senhor e comunique-nos Sua Obra Redentora, iluminando e instruindo os crentes e chamando os pecadores ao arrependimento. Não desconsideremos, nisto, nem a necessidade de que a Palavra seja constantemente exposta à congregação por um ministro fiel (servo de Cristo, em quem habite o Espírito, para que a congregação seja edificada e aprenda a edificar-se também pela leitura e meditação particular e familiar), nem a soberania do Senhor em regenerar e quebrantar àqueles que Ele quiser, quando Ele quiser. Até os sacramentos, que também são meios da Graça de Deus, dependem da Palavra, uma vez que dependem da fé de quem os recebe, fé que é fundamentada na Palavra.

Contudo se, sendo Cristão, ao confrontar-se com as filosofias e cosmovisões do mundo, sua dificuldade não está em aceitar a Escritura, mas em compreender certas particularidade, quanto ao Livro de Gênesis (no caso que temos estudado) ainda abordaremos algumas de possíveis dificuldades mais adiante, mostrando que crer na Palavra de Deus não é negar-se ao pensamento crítico mas aplicar a razão junto à fé, explicando com lógica e discernimento o sentido daquilo no que você acredita. Isso se obtêm em uma busca paciente, em oração, em constante leitura da Bíblia e em eventual consulta a verdadeiros mestres de tempos passados ou do presente - tendo a Escritura como regra suprema - sugiro, para evitar o engano dos falsos apóstolos, os seguintes autores: Joseph Bullinger, Charles Spurgeon, Jonathan Edwards, João Calvino ou algum dos Puritanos (destes, John Owen é um dos maiores). São em Santos servos de Deus como estes que nós, a Igreja Congregacional Kalleyana, reconhecemos o agir do Espírito de Deus no Corpo de Cristo através dos séculos, edificando-nos nas mesmas verdades e em uma una interpretação da Escritura, regida pela Cruz.

Quanto ao homem não convertido, ao ser pego no confronto entre as visões de mundo Cristã e as não-Cristãs, que ele também preze pela verdade - e seja coerente com o que pensa: se crê em Deus, que creia em Cristo, pois quem crê em Deus mas não em Cristo, não conhece a Deus (Lucas 10:16, Mateus 10:40); se crê em Cristo, que creia na Escritura, pelas palavras do próprio Cristo e pelo testemunho vivo da Escritura (Mateus 22:29, João 5:39,10:35, Romanos 15:4,16:26); se crê na Escritura, que creia em toda ela, estude-a com afinco, humildade e em oração, e não se deixe levar por qualquer pressupostos não-bíblicos – agora, se não crê em alguma parte da Escritura, seja coerente e confesse que não crê realmente na Escritura, mas crê em si mesmo, e no que é capaz de julgar sobre a Escritura, para cortar ou adicionar o que o Eterno Autor e Preservador da Lei não apagou nem inspirou; se não crê na Escritura, confesse que não crê realmente em Cristo, apenas gosta das partes convenientes do Seu discurso, especialmente as que não o condenam; se não crê em Cristo, não crê realmente em Deus algum, pois quem ama ao Pai, ama ao Filho que Ele enviou e é uno com Ele; e se não crê em Deus, seu estado é o mais deplorável da existência humana, sua mente foi voluntariamente obscurecida contra o testemunho do seu próprio espírito, não há vida em sua vida, nem referências maiores do que si mesmo em sua mente e a boca do inferno já está aberta sob seus pés para o acolher.


A Revelação de Deus nas Escrituras é o único acesso ao Conhecimento Perfeito

Só pode haver uma Verdade Absoluta, um Universo Verdadeiro, uma Realidade Última. Ela não está no domínio empírico das ciências, não está submissa a mente humana para moldá-la como desejar, nem em domínio algum exceto no domínio do próprio Deus revelado na religião Bíblica. Como não faz sentido que cada pessoa crie sua própria matemática e lógica, onde 3 lápis mais 3 lápis sejam 12 canetas, também não faz nenhum sentido que cada ser humano crie sua própria concepção a respeito de Deus e das coisas eternas; como existe uma regra externa ao ser humano, uma lei física, absoluta, real, que faz com que 3 lápis mais 3 lápis sejam sempre 6 lápis, existe uma única Realidade Última que delimita a única relação possível entre o homem e Deus e tudo o que é eterno. Aos olhos “politicamente corretos” e relativistas dos homens de hoje, estas afirmações parecem radicais. Isto só prova a falência de suas instituições, o que lhes causa tal nulidade de pensamento, onde nem sequer questionam aquilo a que foram condicionados por toda vida. Explico: Pode um homem compreender todos os meandros de uma máquina complexa nunca antes vista, cujos comandos estão em um idioma completamente ignorado em cada caractere, e cujo manual não pode ser consultado? Poderia um arqueólogo compreender os hieróglifos sem a Pedra de Roseta ou semelhante artifício? Obviamente não. Então, como pode uma ciência, assumidamente subjetiva como a filosofia ou disfarçadamente subjetiva como a engenharia, compreender as questões mais profundas da realidade, como as questões eternas, do infinitamente remoto princípio dos tempos ou do infinitamente distante final? Pode a ciência explicar sequer uma razão em vez de um processo, dizendo o motivo pelo qual o céu é azul em vez de informar quais acidentes causam o azul celeste? Ou explicar porque, não no sentido do processo histórico mas no sentido da razão última, exatamente o Cristianismo se espalhou por todo o mundo, moldou a moral que conhecemos e cumpriu profecias do Velho Testamento, cuja matemática indicava datas precisas? Sabemos que a ciência não pode fazê-lo, e que sua metodologia falha até no que necessariamente se abstém da Verdade Absoluta, é apenas um ponto nestas questões. Se a ciência não pode fazê-lo, quem poderá? Para entender a máquina que cogitei acima, precisaríamos de manuais servidos pelo fabricante; para decifrar os hieroglifos foi necessário uma correspondência com linguagens conhecidas, para conhecer o Reino de Deus que, tendo sido a menor das sementes, cresce de tal modo as aves do céu se aninham sob ele, é necessária uma revelação de Deus – para compreender o Universo e conhecer a Verdade é necessário que algo de fora do problema examinado nos informe. E qual outro livro, senão a Bíblia, toma para si a responsabilidade de ser um escrito vindo de Deus, um escrito perfeito e capaz de instruir na Verdade para que o homem seja, pela Graça, recebido na eternidade? Qual outro livro o faz com capacidade para cumprir o que diz, provando-se verdadeiro pelo testemunho das suas perfeitas profecias, dos milhões de pecadores convertidos em despenseiros do Amor Divino, de nações transformadas pela sua mensagem, de seus eventos e datas precisas e de sua inegável antigüidade?

Cabe a cada um de nós buscar a resposta última que nos mostra a saída do Universo; caso contrário, vive-se-á em mentiras, colecionando a ignorância e o vão conhecimento, como que catando os centavos que estão ao chão, enquanto não se nota a coroa de ouro que lhe é gratuitamente oferecida por alguém que permanece de pé ao teu lado.


A Estrutura do Livro de Gênesis

Voltando para a questão do livro de Gênesis, se o analisarmos com a mente de Cristo, segundo a harmonia de toda a Escritura o encontraremos ímpar: um livro que soa poético, ainda que seu estilo literário não seja poesia; simbólico, ainda que trate da realidade não-alegórica; e histórico e acurado, ainda que não conte toda a história de todo o mundo de maneira detalhada. Por causa disso, é muito comum ouvirmos, dentro destes parâmetros citados, o livro mais semelhante a Gênesis seria o Apocalipse. Esta é uma afirmação perigosa, porque é verdadeira apenas se considerada de maneira estrita. É uma comparação válida quanto ao efeito geral do livro, porque Gênesis é, indubitavelmente, possuidor do poder Divino na ação do Espírito de Deus junto ao homem, para imprimir imagens vivas na nossa alma e confrontar-nos com algo em nós mesmos que naturalmente preferiríamos ignorar; neste sentido o caráter gráfico de Gênesis exibe símbolos muito mais numerosos e evidentes do que, por exemplo, o livro de Crônicas, e nos desafia de maneira semelhante ao caráter gráfico contido em Apocalipse. Somos atraídos pelo enigmático início da epopéia humana com tanto poder quanto somos pelo inevitável julgamento final. Na narrativa do fim há a abominável prostituta, na narrativa do início a imaculada e perfeita noiva - Eva; no fim vemos os pecadores santificados, no início vemos o santo Adão pecando. Ambos os livros são reais, porém além de nossa total compreensão, porque falam de estados do Universo que são desconhecidos por nós. Desconhecemos o terrível estado do Universo em que o sol queima os homens com intenso calor, como fogo (Apocalipse 18:1), porém podemos imaginar como isto será; desconhecemos o estado do Universo onde uma neblina sobe da terra e rega o solo (Gênesis 2:6), porém podemos imaginar como era. São fatos concretos, possíveis, ainda que diferentes do que conhecemos e, por isso, não compreensíveis em sua totalidade. Todavia há uma importante diferença: Apocalipse fala de si mesmo, em diversas passagens, como contendo certos textos puramente alegóricos (Apocalipse 11:8,17:5-18). E a Escritura é sempre o verdadeiro e final intérprete da própria Escritura. Em Gênesis, entretanto, nem em qualquer outro livro da Escritura, há menção de alegorias puras no relato da Criação. Tudo é sempre referido como real, ainda que possuindo símbolos. Em Hebreus 11:3a vemos que “Pela fé entendemos que os mundos pela Palavra de Deus foram criados”. Assim, para quem crê na Escritura, Gênesis é inquestionavelmente uma história real, recebida pela fé, ou seja, pelo conhecimento de Deus e de Sua Palavra, pela confiança em Deus e, portanto, em Sua Palavra e pelo consentimento aos mandamentos Divinos expressos na Sua Palavra.


Algumas reflexões em Gênesis

Que grande oposição é esta que a alma do homem natural faz ao livro de Gênesis? É a reação contra o que o livro nos diz, porque nos causa vergonha sermos culpados das acusações que ele traz contra o gênero humano. Em Gênesis ouvimos sobre:

1) a incapacidade humana em agradar ao Criador – Adão ainda que puro, caiu em tentação e nele caímos todos nós. Ele pecou e com e como ele todos nós temos pecado;

2) a natureza finita do homem e de seu inevitável destino rumo ao pó, fruto da desobediência de Adão – do pó da terra foi Adão criado, ao pó da terra todos voltaremos ao morrer;

3) a majestade, poder e bondade de Deus em nos poupar da justa condenação de Sua Ira e em dirigir os eventos do cosmos com o objetivo de redimir alguns homens.


Quanto ao nosso propósito nestes textos, vamos centralizar nossas reflexões no item número 3, a majestade, poder e bondade de Deus. Dentro deste aspecto, deve sobressair em nossas mentes a Majestade de Deus. O Senhor é perfeito em si mesmo, é completo na Una relação de Sua Tri-Unidade. Deus tinha perfeita alegria e prazer em Si mesmo na Eternidade Passada, antes da Criação do mundo. Não há nenhuma necessidade nEle para a Criação do universo; Ele não necessita de nada, nem sequer de algo para expressar Seu Amor, pois o Amor do Deus Trino é pleno e suficiente em Si mesmo – entre o Pai, o Filho e o Santo Espírito. Deus criou o Universo por um ato Soberano, sem nenhuma motivação externa para isto. O que não significa que o Universo não tenha um propósito, porque ele o tem. O propósito da Criação é glorificar ao Senhor (Isaías 43:6,7). A Criação é um meio de Deus glorificar a Si mesmo, é parte do simples fato que em Sua Natureza Pura e Santa, Deus adora ao Único Deus Vivo, ao Único digno de adoração: Deus presta culto a Si mesmo e faz tudo para glorificar-se (Salmo 115:13, Salmo 106:7,8, Ezequiel 20:14, Ezequiel 36:22,23,32, Isaías 48:11). Ele é o único ser que pode prestar culto a Si mesmo porque só Ele é Senhor, só Ele é Deus, plenamente bom e em quem está a suprema alegria e todo dom perfeito (Tiago 1:17, Salmos 16:11). Portanto, em Gênesis aprendemos que o Altíssimo escolheu glorificar a Si mesmo pela Criação, e que a Criação é uma obra perfeita da Triunidade Divina. No Evangelho de João, Capítulo 1, versículo 3, Cristo, a Palavra de Deus é descrita como Criador, porque foi pela Palavra que Deus comandou cada evento de Gênesis – “E disse Deus:” (Gênesis 1:3). O mesmo é afirmado pelo Apóstolo Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios Capítulo 8, Versículo 6. No livro do profeta Isaías, capítulo 40, versículo 13 e em Gênesis Capítulo 1, versículo 2, o Espírito de Deus é mencionado como participante da Criação. O Deus Trino criou o Universo, e vê-se na Criação a ação das três hipóstases do Senhor: Pai, Filho e Santo Espírito. Foi no Seu perfeito Conselho consigo mesmo (Gênesis 1:26) que o Senhor, Soberanamente, por Sua Majestade e Reino, criou tudo o que há. Raramente alguém questiona o conceito geral da Soberania de Deus na Criação; as dificuldades surgem quando começamos a pensar a respeito do que significa cada parte do relato, quando começamos a tentar entender como Deus executou Seu Soberano ato de Criação.

É edificante notar como a Soberania de Deus distingue a mensagem do relato de Criação bíblico dos relatos de todos os povos vizinhos dos Hebreus na época em que Moisés escreveu. Somente na Escritura Sagrada há um sentido de ordem, de controle, de objetivo na Criação. Em todo os outros relatos a criação é apenas um acidente e um fruto do pecado de um ou mais deuses. No entanto, no relato bíblico, as repetições e padrões e a constante evocação do Senhor demonstram Seu planejamento e execução perfeitos. Deus cria o meio onde porá o homem, e tudo o que deve existir, de modo que sempre haja o suficiente para suster a próxima etapa da criação. Então Deus cria o homem, cabeça da Criação segundo a Aliança com Deus. E, quando o homem peca contra o Senhor, Deus mostra que já havia providenciado para nós a Salvação em Cristo, antes mesmo da fundação do mundo (Efésios 1:4). Sim, Gênesis prova-se Palavra de Deus, e o início do mundo ali contido prova-se Verdade por tão sublime que é - além de qualquer construto humano, pleno de sentido teológico e pleno de sentido prático - permanece para sempre, pois foi soprada pelo Espírito aos seus autores e perfeitamente preservado por mais de 6 milênios até nós, e será preservado por tantos milênios quantos Deus tem determinado até o fim – para comunicar-nos o Mistério Divino, e lançar as bases da História da Redenção: que é a Paz que o Senhor nos oferece para, apesar de condenados em pecados como Adão, Caim, os homens de Babel, e os homens que não creram em Noé, apesar de naturalmente possuidores de um coração como o deles, termos reconciliação com Deus por meio do Senhor Jesus Cristo, cujo coração, atos e palavras foram puros e retos como de nenhum outro homem. Gênesis, como toda a Escritura, é uma Revelação de Deus ao homem, é a Voz mesma dEle nos ensinando em Seu Espírito. É um dom concedido soberanamente por Ele e completamente fora dos anseios e desejos humanos.


Humilhemo-nos e exaltemos ao Senhor, agradecendo e suplicando sabedoria para não chamarmos mau ao que é bom, nem chamarmos de ignóbil o que é da mais pura sabedoria, porém além de nossa mente.

Incapacidade Científica, parte 4

Pelas edições anteriores, aprendemos sobre as falhas do método científico atual e as conseqüências dessas limitações; também sobre a teologia da ciência e os serviços do processo científico ao Reino de Deus. Nesta edição examinaremos as conseqüências de nossas crenças sobre nossa prática de vida, sobre nossa ética e sobre a nossa moralidade.


Deus os entregou a uma disposição mental reprovável

Na Epístola de Paulo aos Romanos, Capítulo 1, versículo 28 o Santo Apóstolo nos diz que Deus entregou a uma disposição mental reprovável os homens que desprezaram o conhecimento de Deus. Exatamente este é o pecado a que uma falsa ciência conduz: ela intenta substituir a Revelação Escrita de Deus como detentora da Verdade Última e, por conseqüência, muitas vezes acaba por intentar substituir Deus por algum conceito naturalístico da existência. Os pseudo-cientistas e os entusiastas do cientificismo desprezam o conhecimento de Deus presente na natureza, até mesmo o conhecimento de Deus manifesto na história da ciência, nos seus pressupostos necessários e nos resultados das suas investigações. Então Deus lhes entrega a uma disposição mental reprovável – Deus faz com que suas crenças idólatras os levem a um profundo abismo moral e existencial, na mesma proporção com que esses homens se firmam nestas falsas idéias. Antes de prosseguirmos neste raciocínio, paremos e voltemos para a questão inicial, para levantarmos outro ponto: as dificuldades do cientificismo e de seus entusiastas quanto à interpretação de Gênesis. Na posição mais comum do que se anuncia ser a ciência atual, é comumente aceito que a Terra, em outras épocas, foi um lugar muito diferente. Fala-se de outra atmosfera, de outras biodiversidades, outras formações geológicas, outra geografia e, até mesmo de outras espécies de homens, biologicamente diferentes. Diz-se que tais homens eram tão diferentes a ponto de serem classificados como de outra espécie, seres brutos como primatas-humanos. Diz-se que eles deram origem, através de lentíssimos processos naturais de mutação e seleção, ao homem moderno. No entanto, a Bíblia tem outra história da Criação, que (exceto se tomada de maneira que seria estranha tanto às intenções do autor quanto aos Cristãos comuns de cerca de 65 séculos seguintes) é incompatível com a visão científica. O Cristão, conhecendo a Verdade da Escritura e a falácia da ciência, deve crer na Escritura e descartar toda idéia que contrarie a Palavra. Isto não significa que o Cristão deva ser ignorante ou beligerante quanto à cultura de sua época, mas que ele deve manter em mente a fragilidade e a provisoriedade do conhecimento humano e compará-lo com a permanência e força do conhecimento Divino revelado nas Escrituras. O Cristão não deve tentar provar cientificamente a Escritura, nem opor-se à ciência de modo irrestrito; ele deve conhecer a ciência de sua época para prová-la pela Escritura, em oração e estudo da Palavra, para reter o que é bom, o que é prático, técnico, e descartar o que vai além da mera constatação de probabilidades. Por outro lado, o Cristão deve ser capaz de explicar a Escritura em linguagem acessível para o homem comum, cuja mente foi afetada pela grande oferta de pseudo-ciência na mídia.

No início de nossos textos sobre este assunto, citamos um homem hipotético que se proclamava Cristão mas não cria na historicidade de Adão. Imagino que este homem, um dia (talvez quando jovem), tenha crido sem dificuldades que Adão foi uma pessoa real em um tempo e lugar reais. Em algum momento este homem abandonou esta crença para adotar uma visão alegórica de Gênesis, como se tudo o que ali está registrado não passasse de um mito. O que este homem adotou no lugar de sua crença em Adão? Agora ele crê que a humanidade evoluiu a partir de primatas. E este infeliz, falso ou fraco Cristão acha mais lógico crer nesta segunda hipótese, porque há muita coisa sobre o que a Escritura diz que ele não sabe explicar quando desafiado pelas últimas descobertas científicas. Porém, eu pergunto: Sabe este homem explicar, pela tal ciência, todas as contradições e dificuldades inerentes a se crer que um primata pode evoluir e se tornar humano? Pode ele resolver as impossibilidades metodológicas e probabilísticas envolvidas? E quanto às dificuldades teológicas? Já dissemos que escolher crer na evolução como origem para o homem não é algo inteligente. Agora, retomando um pouco do que dissemos acima sobre a Epístola de Paulo aos Romanos, no Capítulo 1, versículo 21, ao falar sobre aqueles que não dão ao Senhor a glória que Lhe é devida (como a glória de ser o Criador dos céus e da terra e de tudo o que neles há), diz-se que eles obscurecem o próprio coração insensato – eles preferem fazerem-se cegos para suas percepções, pervertendo suas vontades e afeições tanto quanto possível; preferem a obscuridade à Luz de Cristo, para não terem de enfrentar as terríveis conseqüências de uma consciência atormentada pelos pecados e pelo constante anúncio que faz à si mesma a respeito da existência de Deus e da honra e glória que somente ao Senhor são devidas.

Cego é o homem que rejeita algo porque não compreendeu isto e, em lugar, adota uma crença que também não compreende, mas na qual se resigna!

Cego também, é aquele que adula as tradições humanas, religiosas ou científicas e não se empenha na busca da Verdade!

Esta já é a punição pelo seu pecado, pois em sua cegueira não tardará a cair em um profundo abismo – a sua disposição mental reprovável o levará à “coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia” [Epístola de Paulo aos Romanos 1:28-31] .


Nossas crenças têm conseqüências morais

O Senhor Jesus Cristo, assim como os Santos Apóstolos (pelo que pudemos notar a respeito de Paulo nestes dois curtos exemplos em Romanos), nos ensinam que aquilo em que cremos é o que molda nossa moral. Tanto nosso Senhor quanto os Apóstolos ensinaram que Gênesis narra eventos históricos. Eles também nos ensinam que deve-se buscar compreender a Escritura, pois ali está o Testemunho de Deus, e que a Escritura deve ser vasculhada e estudada como Palavra de Deus, porém, que não deve a letra ser aceita friamente e sem reflexão, mas com vida e vigor, com entendimento, para toda prática de boas obras. Estes dois ensinos possuem a mesma relação que aquilo que comentamos a respeito de Romanos, a saber: a maneira como o conhecimento de Deus é recebido (no caso o conhecimento de Deus em Gênesis) reflete na disposição mental do indivíduo, para que ele se disponha para o bem ou para o mal. Assim, Cristo Jesus e os Santos Apóstolos baseiam o ensino moral, a prática da justiça, na crença que professam em um Gênesis histórico; e não por tomar uma lição, como de uma fábula, a partir do que está escrito, mas fixando as bases na crença de que o fato enunciado é uma narrativa histórica e um testemunho de como Deus agiu e ainda age. A respeito de adultérios e divórcios, Cristo evoca Gênesis 1:27; 2:24. As palavras do Senhor são: Não tendes lido que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.” e estão registradas no Evangelho de Mateus 19:4-6. Inspirado pelo Santo Espírito, Paulo nos ensina: “Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras. A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.” segundo o escrito na sua primeira carta a Timóteo 2:9-13. Por conseguinte, é a crença em Adão e Eva como primeiro casal que delimita a relação entre todos os casais subseqüentes; é ali que se define o protótipo da relação ideal entre marido e mulher. Se fosse tomado apenas como uma fábula, haveria uma contradição entre a realidade do que Deus operou no Universo e a história que Ele teria contado para instrução a respeito do casamento. Explico: se a realidade fosse que o homem evoluiu de primatas (e esses de seres mais simples), então teríamos de admitir que Deus criou os proto-homens e seus antepassados evolutivos desempenhando outros meios de organização social (e até de reprodução), que não a família monogâmica. Se esses proto-homens não foram conduzidos à evolução vivendo em famílias monogâmicas, e se, mesmo inicialmente, a instituição monogâmica não foi fixada (unicelulares não são exatamente o que podemos chamar de monogâmicos...), então como teríamos que o casamento de um homem e uma mulher é uma instituição e um preceito permanente? Se, em certas épocas da evolução, foi melhor para os homens a poligamia e se em outras épocas foi imprescindível para os antepassados evolutivos do homem outras formas de reprodução, então como poderíamos asseverar que esse quadro não retornaria hoje? Esta é apenas uma das dificuldades para os que tentam conciliar a pseudo-ciência e a Escritura por um sincretismo – que sociedade pode haver entre a luz e as trevas? Entre a mentira e a verdade? Nenhuma! Certamente, portanto, a Escritura ensina a historicidade de Adão e Eva e, delimita a partir deste fato real, o modelo pretendido por Deus para o casamento. A Escritura é uma Palavra perfeita, completa e una. Se examinada como um conjunto, se interpretada pela própria Escritura, nenhuma mentira subsistirá contra ela. Quanto às conseqüências práticas de se crer em um casal original real e suas aplicações no exercício da piedade, podemos aprender que:

1 ) Adão não poderia pedir divórcio de Eva - Deus lhes ordenara que crescessem e se multiplicassem, e não haveria ninguém mais com quem pudesse Adão se casar caso repudiasse Eva, portanto, só pela manutenção de seu casamento que o casal primordial poderia cumprir a ordem do Senhor.

2 ) Adão não poderia cobiçar outra mulher, nem possuir nenhuma outra, nem ser casado com mais do que uma – Deus mesmo só havia lhe dado uma.

3 ) Adão não poderia ainda ter comportamentos homossexuais, pois Deus lhe dera a Eva, mulher.

4 ) Adão não poderia queixar-se dela, pois o Senhor a criou da própria costela de Adão (por quantos séculos a ciência negou que isto fosse possível! Até que se descobriu sobre o DNA contido todas as células do corpo, inclusive na costela) para ser a melhor companheira possível para ele.

Assim, a Criação de um casal primordial ensina todas essas coisas tanto de maneira histórica (pelo que se depreende dos fatos), quanto por ensino direto do texto da Escritura (quando, por exemplo, a relação entre Adão e Eva é selada com a frase “os dois em uma só carne”).


Mais algumas evidências de que a Escritura ensina um Gênesis literal

Em um momento anterior deste texto, citei o que o Senhor Cristo Jesus e os Santos Apóstolos nos ensinam a respeito de Adão e Eva. Existe uma grave conseqüência naquelas palavras de Cristo Jesus, quanto ao ponto que estamos discutindo, a respeito da historicidade de Gênesis. Pois, sabendo que a Escritura nos ensina a Divindade de Cristo, e conhecendo dela que Seu ensino é sublime além de qualquer concepção da sociedade ou da época em que Ele ensinou, podemos concluir seguramente que, ao instruir a respeito de Adão e Eva, falando deles em um discurso que trata-os como pessoas reais – não como parábola ou metáfora – e tratando da crença na criação especial de Deus como ponto de partida para uma moral elevada, Ele o fez ciente de que estava também afirmando a historicidade de Adão e da Criação tal como está narrada em Gênesis. Seria possível, se Cristo desejasse, explicar Adão e Eva em um contexto de parábolas, e assim, salvaguardar as gerações futuras de um entendimento literal, se fosse errado ter um entendimento literal de Gênesis. Contudo o Senhor não o fez, mesmo, que como Deus, soubesse perfeitamente das conseqüências imediatas e futuras de como seriam entendidas aquelas palavras. Igualmente, o Apóstolo Paulo (o qual a Escritura nos diz escrever a infalível e inerrante Palavra de Deus, pela inspiração do Espírito de Deus) recua até Adão e expressa sua crença na literalidade de Gênesis e na necessidade dessa crença para a compreensão da correta relação entre o homem e a mulher. Assim como o faz o Evangelista Lucas, que recua a genealogia de Cristo, citando pessoas reais de diversas gerações até chegar a Adão. Há muito mais nas Escrituras que atesta a intenção histórica de Gênesis, contudo, não pretendo me estender muito sobre isto, pois o genuíno Cristão é cativo da Palavra de Deus e sabe que somente a Bíblia - e toda a Bíblia - é perfeitamente inspirada pelo Santo Espírito de Deus, soprada por Deus aos Seus santos homens, como diz a segunda carta universal de Pedro 1:21. O Cristão sabe também que a Escritura inteira é capaz de conduzir à perfeição do espírito e instruir para a salvação como diz o Apóstolo Paulo em sua segunda carta para Timóteo 3:16 e, finalmente, porque o Cristão ouve a seu Mestre, Cristo, que afirmou claramente que a Escritura não falha nem será jamais anulada como está registrado no Evangelho de João 10:35 e no Evangelho de Mateus 5:18.


Nenhuma doutrina pode ser negligenciada sem conseqüências morais

Do lado negativo, uma crença baseada no que não é perfeito, será ampliada em seu erro pela ocasião que a natureza humana maligna encontrará aí para expressar-se livremente. O Santo Apóstolo Paulo diz, na epístola aos Colossenses 1:9-10: “Por esta razão, também nós, desde o dia em que O ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da Sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus”. Notemos que o pleno conhecimento da vontade de Deus e toda a sabedoria e conhecimento espiritual estão dispostos como conceitos complementares, e até, sobrepostos. Este completo conhecimento da vontade de Deus, que é uma sabedoria e um entendimento espiritual completos, resultará em uma vida de inteiro agrado, que frutifica em toda boa obra e em um perfeito relacionamento com Deus. Há uma relação direta entre as duas coisas: o conhecimento, sabedoria, entendimento (do que é espiritual) e a vida em Deus (com boas obras de amor ao próximo e manifestação do amor ao Senhor). O Apóstolo Paulo, em sua segunda carta para Timóteo 3:16-17, afirma, como referido pouco antes em nosso texto, que o que torna o homem perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra é Toda a Escritura. E, em Atos dos Apóstolos 20:27, o Apóstolo Paulo fala sobre ter ensinado todo o conselho de Deus. Portanto, Toda a Escritura, contém todo o conselho de Deus, o pleno conhecimento da Sua vontade, é capaz de dar sabedoria e entendimento espirituais completos, para inteiro agrado ao Senhor, fazendo o Cristão andar em toda boa obra, em perfeita aliança com Deus. Retomo a primeira frase deste capítulo, e proponho, por conseqüência lógica e pela boa prática de interpretação da Escritura, que o o lado negativo deste ensino é: Uma fé firmada em menos do que todo o conselho de Deus, em menos do que o pleno conhecimento da vontade do Senhor, gerará uma sabedoria e entendimento espiritual parciais e uma vida que agrada apenas parcialmente a Deus. Ora, e um entendimento “meio espiritual” é um entendimento “meio carnal”; uma vida parcialmente ao agrado de Deus, é uma vida que realmente não agrada a Deus – ou seja, uma vida que ofende ao Senhor. Nenhuma parte da Escritura pode ser negociada, nenhum ensino da Fé Cristã pode ser negligenciado sem terríveis conseqüências. Deus criou o homem e imprimiu nele Sua imagem, a Lei do Senhor foi gravada no pilar da sua consciência, no espírito humano. Com a queda de Adão, a corrupção destruiu o poder desta imagem fazendo com que o homem se torne escravo do pecado. Porém não destruiu o testemunho desta imagem de Deus na alma do homem. Por isto, todas as notas entoadas pela Escritura, como uma música espiritual, ecoam uma Divina harmonia na imagem de Deus gravada na alma humana. A Escritura ensina Verdades primordiais para as quais o homem foi criado. Quando uma destas notas falta, a sinfonia se desfaz e os ecos são disfônicos – há uma música, mas já não é a perfeita composição de Deus no homem. Nada pode ser removido da Escritura sem prejudicar todo o conjunto da obra de Deus na alma humana, sem desfazer a Divina sinfonia. Por exemplo, quanto ao que temos discutido nestes artigos, qual a conseqüência de se negligenciar a doutrina da Criação Especial do homem e se crer na evolução segundo Darwin? Vamos ouvir o que Darwin mesmo tem a dizer, mostrando-nos as conseqüências de sua doutrina: “Entre os selvagens, os fracos de corpo e mente são logo eliminados. Nós, civilizados, fazemos o possível para evitar essa eliminação; construímos asilos para os imbecis, os aleijados, os doentes; instituímos leis para proteger os pobres... Isso é altamente prejudicial à raça humana.”. É necessário comentar? A crença de Darwin a respeito do evolucionismo levada às suas conseqüências naturais segundo uma mente sincera (porém engodada pelo pecado) resultam em Eugenia – uma filosofia e uma política que, dentre outras coisas, inclui a esterilização de homens e mulheres considerados possuidores de uma genética ruim (como propagandeou com determinação Leonard Darwin, filho de Charles Darwin), assim como o fim (ou a diminuição) dos cuidados com os desvalidos, sejam idosos, doentes ou sindrômicos. O nazismo é adepto da Eugenia. Francis Galton, outro famoso darwinista, primo de Charles Darwin, atesta isto dizendo: “Os homens e mulheres dos dias atuais, comparados com aqueles que queremos trazer à existência, são como os vira-latas das ruas da cidade leste comparados com nossos cães de pedigree.” (retirado de Hereditary Character and Talent - publicado no MacMillan's Magazine, vol. 11, Novembro de 1864 e Abril de 1865, pp. 157-166, 318-327) e, sem meias palavras, Galton classifica os indígenas e os negros em termos igualmente baixos, os quais prefiro nem reproduzir. Cabe comentar que Leonard, filho de Darwin, seguiu a Galton na liderança da luta pela Eugenia. Claro, nem todos os que crêem no evolucionismo são tão radicais a maioria não aplica o conceito a grupos étnicos, mas o aplica, ainda que sem perceber, ao mercado de trabalho, por exemplo, dando a luz à selvageria financeira onde países ricos devoram países pobres e bancos endividam nações inteiras em sua luta pela sobrevivência - nada diferente da Eugenia, exceto que, em lugar de eliminar os pobres, incultos, aleijados e doentes matando-os, eles são marginalizados, cortados da sociedade, “socialmente mortos” pela exclusão ao acesso a um meio digno de trabalho e entrega à miséria e condições sub-humanas. Sem dúvida, nossas crenças quanto à origem do universo (assim como nossas crenças quanto a qualquer das doutrinas Bíblicas) afetam, e muito, a maneira como lidamos com o próximo. No caso do evolucionismo o coração pervertido que todo homem naturalmente possui, leva-o pelo desejo do pecado alimentado por esta filosofia, a transformar a vida em seqüências de competições e disputas (onde o mais apto sobreviverá) em lugar de se portar com amor e respeito pela imagem e semelhança de Deus no homem; o cuidado com os mais fracos é substituído pelo desprezo aos derrotados. A boa compreensão das Escrituras dirige os homens à Vidas Santas e Boas Obras; a mentira cientificista conduz a humanidade à bestialização e ao egoísmo. Que o Senhor tenha misericórdia de Sua Igreja, em tempos de tão grande leviandade para com a Sua Palavra, quando multidões de homens preferem crer (contra a razão e a Escritura) que são primatas sem pêlo, e preferem sustentar estas crenças (apesar de todas as conseqüências terríveis que elas trazem), em lugar de admitirem que são criados pelo Senhor para terem nEle a Vida e para O glorificar em tudo o que fizerem.