Esperança em Tempos de Apostasia - Parte 11

Os versículos seguintes dos textos sinóticos dos Evangelhos, examinados em nosso presente estudo, continuam falando dos sinais e dos tempos proféticos. Mais uma vez ressalto que os Judeus em geral esperavam que com o advento do Messias, acompanhado de algum cataclismo, seria estabelecido o Reino Teocrático em Israel e a nação governaria sobre todos os povos do mundo; eles esperavam que esta era de ouro, este mundo porvir, fosse imediatamente e plenamente introduzido com o advento do messias, que destruiria toda a presente ordem dos séculos. Entretanto, biblicamente, iluminados pelo Espírito com a mais clara luz do Novo Testamento, aprendemos nestes nossos estudos que o mundo porvir, sendo de natureza espiritual, é um Reino supranacional e invisível, uma nação santa espalhada por toda a Terra (e além dela, nos domínios celestiais onde habitam os Cristãos já falecidos), composta de todos os homens chamados pelo Evangelho e unidos, pela Fé, a Cristo Jesus, o Rei e Sumo-sacerdote de nossa confissão; e que, portanto, o Reino de Cristo e o mundo vindouro são uma realidade presente, não introduzidos pela destruição da primeira Criação, mas pela Nova Criação (fruto da obra Redentora de Cristo Jesus), aplicada pelo Espírito de Deus nas almas dos homens que Ele chama eficazmente ao arrependimento e à fé. É muito triste quando, à semelhança da cegueira daqueles Judeus, os homens que professam ser Cristãos em nossos dias, têm seus olhos voltados para os poderes políticos, as riquezas e o fluxo das nações, quando têm seus olhos fixos na beleza das construções dos seus luxuosos templos, na pompa e ritualismo das suas cerimônias e nos números das multidões que atraem com seus artifícios criados para entreter e exaltar os homens. É triste porque a Escritura nos deixa claro que o vero templo está em Cristo Jesus, que os Cristãos devem habitar, viver e reunir-se humildemente; que a presença de Deus está na Palavra retamente pregada do púlpito, ministrada nos sacramentos e vivida pelo povo. Devemos ter nossos olhos no Reino de Cristo, e não naquilo que é passageiro e temporal; devemos desejar e buscar a substância da vida Cristã e não nos contentarmos com as sombras e os restos que agradam aos pagãos. Veja que o mundo porvir sobrepõe-se à presente era, eles coexistem para que, tendo sido chamados por Cristo enquanto habitando a presente era, morramos para o mundo e vivamos segundo a natureza do nosso celestial e eterno chamado. Tendo ainda em vista que estas realidades coexistem somente enquanto o Reino, como a rocha que cai sobre a estátua vislumbrada em sonhos por Nabucodonozor, despedaça primeiro os pés de ferro (coexistindo com a o resto da estátua) e cresce, pouco a pouco, até esmiuçar todos os reinos ali representados até finalmente estender-se por todo a Terra [Daniel 2:34,35]. Hoje, tendo já destruído a força e a expressão dos antigos rudimentos – a religião, o Estado e o templo judaicos, assim como a religião e o Estado romanos - o mundo porvir cresce, em Cristo, destruindo os outros rudimentos, os reinos e estados e templos antiCristãos, em uma série de duras e longas tribulações e batalhas. Tudo o que é falso, tudo o que é meramente humano, toda a riqueza, todas as multidões que buscam seus interesses mesquinhos em lugar de buscar a glória de Deus, todos estes artifícios, invenções, imaginações, sombras e restos, tudo isto perecerá com o passar dos séculos e seus ímpios autores sofrerão a mais horrível condenação no Dia da Ira de Deus. Seja nosso coração aplicado à certeza da realização das promessas do Evangelho - mesmo aquelas que sequer vislumbramos - e seja nossa alma afastada de toda cobiça, avareza e mundanismo, de toda glória exterior e assim prossigamos a examinar o Discurso Escatológico de nosso Senhor:

"Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino. Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos assusteis; pois é necessário que primeiro aconteçam estas coisas. Haverá pestes, terremotos em vários lugares e também fomes. Mas o fim não será logo, todas estas coisas são o princípio das dores." [Mateus 24:7,8; Marcos 13:8; Lucas 21:9]

Quando o Senhor deu estas palavras a Seus discípulos, o ano provável era 29 ou 30 d.C. Passou-se ainda mais de duas décadas antes que todo o mundo houvesse sido tomado de revoluções e guerras, precisamente como o Senhor houvera predito. Quanto mais se aproximava o fim da era judaica e a plena revelação da Igreja de Cristo, mais a ordem política e social se desintegravam no Império Romano. A presente era mais e mais era abalada pela aproximação da Revelação da Igreja; conforme o Altíssimo mesmo disse que faria quando prometeu abalar as fundações e as montanhas da Terra com Sua ira, para exaltar a Cristo e a Seu Povo [Salmo 18:7]. O reinado de Tiberius, ainda na terceira década do século I, foi perturbado por suas crises paranóicas, pelas quais plantara as sementes de futuras conspirações e desavenças; morrera no ano 37 d.C., sendo sucedido por Gaius (mais conhecido como Calígula), que logo tornara-se patentemente insano e terrivelmente cruel, terminando seus dias assassinado no ano 41 d.C. O caos crescente encontra no reinado de Nero ainda mais instabilidade, opressão e loucura, que culminam no seu suicídio no ano 68 d.C. Durante este reinado, na Judéia, sob o governo de Festo, a anarquia predominava; sacerdotes rivais competiam pela autoridade religiosa entre os Judeus e seus seguidores batalhavam na ruas e cidades. Albino, o sucessor de Festo, seguia de perto a crueldade e tirania de Nero, porém, substituído por Floro, foi ainda superado em violência e imoralidade por este último. Em tal cenário, com o suicídio de Nero, a Revolta Judaica, incitada por tantos daqueles falsos cristos e falsos profetas dos quais falamos na última edição, conflagrou-se uma guerra civil; os batavos, povo guerreiro de uma província na região aproximada da atual Holanda, também se rebelaram e diversas batalhas internas irromperam por toda a extensão do Império, mesmo na Capital. Acompanhando as sangrentas guerras civis, veio a fome, causada tanto pelos ataques contra as fontes de suprimento, como pelo desvio dos recursos para alimentar as tropas. Porém, com o julgamento Divino, uma grande fome antecedeu o reinado de Nero [Atos 11:28], tornando escassos os suprimentos desde antes das guerras; vindo então as revoluções e revoltas, a escassez, ainda que não tenha se tornado tão intensa como aquela prevista por Agabus (e que já houvera passado) tornou-se vasta e generalizada em todo o Império. Contudo, o mais terrível episódio destas fomes foi, sem dúvida, durante o cerco à Jerusalém: o ápice da Ira de Deus derramada sobre o judaísmo hipócrita, quando as coisas mais degradantes voltaram a ocorrer dentre os Judeus, como aquelas citadas pelo profeta Jeremias [Lamentações 4:3-5;9-10]. E, destas acumulativas violências e fomes, não é estranho que brotaram pestilências; como parte dos julgamentos vindos do Altíssimo, as pestilências ceifam mesmo aos que se abstêm das lutas ou os que são mais robustos e resistentes à inanição. Não bastasse isto, à todas estas coisas somou-se a devastação causada pelos terremotos, que tornavam as casas dos homens em suas sepulturas e cidades inteiras em cemitérios. Não foram poucos os tremores naqueles dias próximos ao nascimento da Igreja, quando, mediante a voz do Senhor, abalaram-se os céus e a terra [Hebreus 12:25], tanto naturais quanto espirituais, para sacudir dos Seus domínios os ímpios [Jó 38:13], e fazer vir o longamente desejado Messias e Libertador às nações com grande glória em Seu vero Templo - a Igreja [Ageu 2:6-7]. Vemos estes abalos no Capítulo 4 de Atos dos Apóstolos e, posteriormente, no Capítulo 16; além destes registrados no Novo Testamento, houve terremotos em Roma (51 d.C.), Phlegon (60 d.C.), Campânia e Crete (63 d.C.), e ainda outros mais em Smyrna, Miletus, Chios, Samos, Laodicéia, Hierápolis, Colosso e Judéia - alguns destes causando a destruição de cidades inteiras. Mas o fim não viria logo. Estes sinais foram somente o início das dores - "odin" é o que diz o grego original e significa " dores de parto" - porque a Ira de Deus que começou a ser derramada sobre aqueles que recusaram o Evangelho, não mais se recolherá até que todos os inimigos de Cristo sejam postos por escabelo de Seus pés [Salmo 110:1; Hebreus 10:13]; com dores de parto cada vez mais freqüentes e fortes até o dia do seu julgamento, Jerusalém foi destruída e a Igreja fortalecida (como já temos feito notar nestes estudos); com dores de parto cada vez mais freqüentes e fortes, cada nação e cada homem rebelde serão julgados, e os eleitos chamados e convertidos, assim será até o dia do Julgamento Final [Isaías 66:7-9; Romanos 8:22; Gálatas 4:19; Apocalipse 12:2-6]. Dores de parto, súbitas em seu aparecimento, porém freqüentes e cada vez mais violentas depois disto, anunciando um nascimento que pode tardar, mas certamente virá; dores de parto que são um sinal da Queda [Gênesis 3:16] e, ao mesmo tempo, são o sinal da esperança da Redenção [Gênesis 3:15].

Cabe a cada um de nós atentarmos para estes sinais, tendo em mente esta dicotomia - Queda e Redenção - e nos apropriarmos dela entendendo-a tanto em relação à nossa união com Cristo (e, portanto, na nossa incorporação nos atos de Redenção que Deus opera através da Igreja), quanto em relação à nossa pessoal Aliança com o Senhor. Cabe a cada um de nós, ao nos depararmos com as guerras, terremotos, pestes e fomes, clamarmos ao nosso Senhor para que "Seu Reino venha a nós" e "Sua vontade seja feita", para que Ele vivifique Sua Igreja e nos capacite, individualmente e como organismo, a levar fielmente a Palavra que é capaz de trazer a vera paz e afastar a Ira de Deus de sobre as nações. Cabe a cada um de nós, ao sermos acometidos pelas guerras, terremotos, pestes e fomes, clamarmos ao nosso Senhor por misericórdia, porque nossa individual maldade, a maldade no meu coração e no seu, é o motivo de todos estes julgamentos [Gênesis 6:5-7]; cada um de nós merece (eu mereço, você merece), tanto mais sofrimento quanto o causado por cada ato da Divina vingança contra nossos pecados; nós somos a vera causa dos males do mundo. Cabe a cada um de nós, ainda tendo enxergado por estes sinais a marca da nossa própria miséria, olhar para Cristo, o Senhor, que deu Sua vida para tomar para Si algumas destas miseráveis criaturas - que somos nós - e constituir nelas, com o poder de Seu precioso Sangue, uma Nova Criação, uma natureza redimida, liberta da escravidão dos pecados, chamada para a Santidade. Cabe a cada um de nós olharmos ainda para as guerras, tragédias, doenças e privações pessoais e enxergar nelas, novamente, a nossa miséria e, a partir desta denúncia, buscarmos o arrependimento e a humilhação diante do Salvador, estendendo para Ele as mãos trêmulas e necessitadas, de quem, além do pecado, não tem nada em si que possa apresentar com sinceridade ao Senhor e aguardar na misericórdia e graça dEle, para que nos perdoe, acolha e vivifique, na Sua obra de Redenção; que nos faça, ainda que com muitas dores, ainda que com dores sofridas e compartilhadas com aqueles que pela Igreja e por aqueles que por nós oram e trabalham [Gálatas 4:19; Romanos 8:18; Colossenses 1:24], nos faça nascer de novo, convertendo-nos verdadeiramente do mal caminho de nossa alma, firmando-nos os pés na estreita, porém reta, estrada que leva à Vida Eterna.

Esperança em Tempos de Apostasia - Parte 12


"Haverá também coisas espantosas, e grandes sinais do céu. Mas antes de todas estas coisas lançarão mão de vós, e vos perseguirão, entregando-vos aos concílios, às sinagogas e às prisões para serdes atormentados e açoitados; conduzindo-vos à presença de reis e presidentes para lhes servir de testemunho - sereis odiados de todas as nações por amor do meu nome. Nesse tempo, muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se aborrecerão."


[Mateus 24:9-10; Marcos 13:9-10; Lucas 21:11-13]



Há certa controvérsia quanto às "coisas espantosas, e grandes sinais do céu". Não porque o registro da profecia seja impreciso ou porque faltem dados históricos, mas porque o racionalismo assaltou a Igreja de Cristo, especialmente desde o surgimento da Teologia Liberal. Digo isto porque os antigos homens de Deus, até por volta do século XVIII, não temiam afirmar que o inexplicável e o insólito existiam também fora das páginas da Escritura; não temiam dizer que, apesar de os dons e ofícios extraordinários (como o Apostolado, ou a Profecia) haverem cessado há muito (desde os tempos da fundação da Igreja neotestamentária), os milagres, ou seja, as ações de Deus que manifestam Seu controle sobre a Criação e Seu poder de operar sobre e através de quaisquer "leis naturais" teorizadas pelo homem (elaboradas usualmente com base na regularidade dos comuns acontecimentos e, portanto, alheias a qualquer firme fundamento senão o desta regularidade) não cessaram e jamais cessarão – são parte da prerrogativa da Soberania e Majestade do Altíssimo. O Reformador João Calvino, ao comentar sobre estes presentes versículos do Evangelho de São Mateus, encaminha o leitor para a obra chamada "As Guerras Judaicas" do historiador judaico-romano Flávio Josefo; advertindo que, embora não haja registro inspirado do cumprimento desta parte do Discurso Profético de nosso Senhor, há um registro histórico, tão confiável quanto pode ser qualquer escrito humano. Os Puritanos John Lightfoot e Matthew Henry fazem menção à esta mesma obra de Flávio Josefo. E o que há nesta obra que relaciona-se com a presente profecia, afinal? O referido livro - "As Guerras Judaicas" - narra sinais nos céus, estrelas ou cometas, dentre outros acontecimentos estranhos, que ocorreram em Jerusalém antes da destruição em 70 d.C. Ora o racionalismo, e mais específicamente a idéia de que não só a razão, mas a ciência deve explicar determinado fenômeno para que seja crido, impediu que tais relatos fantásticos de Flávio Josefo fossem tomados como relatos aceitáveis e consideráveis quanto ao cumprimento desta profecia. Esta elevação da ciência a um lugar que não lhe pertence, ou seja, o lugar de juíza da verdade e mãe de todo o conhecimento, causou ainda uma reação extrema em certo seguimento da Igreja; muitos, para negarem o racionalismo, se tornaram místicos e deificaram a ignorância, recusando qualquer evidência e informação, mesmo qualquer conhecimento, que esteja fora da Escritura e da sua revelação particular a respeito da mesma - o que, na prática, quanto ao presente caso, teve o mesmo efeito. Note que os Reformadores e Puritanos, não nos legaram nenhum dos extremos, como, em verdade, o consenso dos antigos mestres dos primeiros séculos da Igreja também não nos legaram. Antes, estes preciosos homens nos mostram, pela Escritura, que o conhecimento obtido pela experiência própria e pela experiência alheia deve ser testado pela Palavra e não por qualquer método naturalista, cartesiano ou seja lá o que for. Assim, muitas coisas espantosas e sinais dos céus, segundo o testemunho da História, e em acordo com a Profecia bíblica, ocorreram naqueles anos próximos a 70 d.C. para anunciar a grande obra que o Senhor realizou naqueles dias, a fundação da Igreja Neotestamentária e a revelação da Nova Aliança em Cristo Jesus: sim, a notícia do Evangelho e o poder para Salvação dos pecadores irromperam ao mundo, pela misericórdia, graça e ação de nosso Senhor, marcando para sempre aqueles dias como um tempo absolutamente único na História humana, verdadeiramente um tempo onde os poderes foram abalados e um novo céu e uma nova terra trazidos ao universo temporal.



Mas antes da Igreja estar plenamente fundada e antes mesmo do Evangelho correr o mundo anunciando nosso Salvador amado e o poder de Sua ressurreição, os discípulos e Apóstolos haveriam de padecer muito sofrimento. Veja que quando o Estado e a Religião interceptam os negócios um do outro, quando tal é feito na forma de instituições e hierarquias anti-bíblicas, quando tal é feito para domínio de um sobre o outro, então a Igreja sofre e o mundo triunfa. E esta era a situação da Igreja Judaica naquele momento, esta era a situação da Religião bíblica naquele momento - o Estado e a Religião Judaica se confundiam, se interceptavam; polêmicas teológicas logo se tornavam polêmicas políticas e partidos políticos logo se tornavam seitas do Judaísmo. Com o Evangelho sendo pregado e, portanto, desafiando as seitas predomimantes da religião Judaica a comprovarem se verdadeiramente seguiam a Escritura e obedeciam ao Senhor, logo esta questão teológica e religiosa atravessou as fronteiras da organização eclesiástica (os concílios e sinagogas), para os domínios estatais (prisões, reis e presidentes).

Quanto a isto, há duas lições para nós:


1) Que importa que com muitas tribulações se entre no Reino de Deus [Atos 14:22].


2) Que mais uma vez a natureza espiritual do Reino, que constrasta com as expectativas judaicas (conforme já vimos nas edições passadas), é tão destacada que aquilo que parece uma derrota, como as perseguições e as prisões, em verdade, fortalece a Igreja.



Com detalhes, reflitamos sobre cada um destes dois pontos, iniciando com a necessidade de muitas aflições para entrar no Reino de Deus.


Em primeiro lugar, note que o texto [Atos 14:22] diz que importa; não é opcional, não é facultativo, não é somente para aqueles homens que ouviram imadiatamente estas palavras (embora, sem dúvida, seja especialmente para estes) - antes, importa, é necessário, é uma condição. Igualmente, na profecia, a perseguição é certa e, como ordenada por Deus, necessária e boa. Todos os Filhos de Deus, todos os que entram no Reino de Deus, todos os Cristãos, devem esperar tribulações e perseguições neste caminho. Há uma aliança entre os reis mundanos, entre os líderes que propagandeiam o pecado, entre os povos e massas de não-convertidos; há uma união e um acordo deles no pecado, na vã imaginação, na revolta contra o verdadeiro Rei - Cristo Jesus [Salmo 2:1-3; Romanos 1:18-32] e, portanto, contra Seu povo. Há uma natural inimizade entre o Cristão e o ímpio, "O ímpio maquina contra o justo, e contra ele range os dentes. O ímpio espreita ao justo, e procura matá-lo." [Salmos 37:12,32]. Portanto, quando o Cristão se submete ao Reinado de Cristo, presente e espiritual (como já temos aprendido), quando o Cristão luta para que seja visível este reinado, para que venha a nós o Reino e seja feita a vontade de Deus na terra; quando o Cristão vive e traz consigo a Palavra, quando diz ao ímpio "Tu certamente morrerás" [Ezequiel 33:8a]; quando condena os prazeres dos ímpios, odeia os seus entretenimentos e se separa deles visivelmente; quando difere deles no vestir, no falar e no uso do tempo e do dinheiro; quando o Cristão, com força e poder, pela Graça de nosso Senhor, faz visível e audível a sua Fé, então o ímpio o considera abominável e o odeia [Provérbios 28:4; 29:27]. Portanto, importa sofrer tribulações, importa ser perseguido, importa ser odiado. Se o seu cristianismo é tão frágil e insignificante que não desperta o ódio do mundo e não te traz nenhuma limitação quanto a sua vida em sociedade, quanto às companhias que você desfruta, quanto à forma como você passa o Domingo, quanto às coisas às quais você expõe seus olhos, quanto aos objetivos que você nutre e para os quais se dirige; enfim, se o seu cristianismo não te traz nenhuma tribulação, tema! Porque um homem morto no meio de homens mortos conhece paz, mas um homem vivo não repousa entre cadáveres! Tema e veja se acaso os abutres não estão a devorar suas mãos ou a banquetear-se de seus órgãos, enquanto você engana a si próprio considerando-se um bom Cristão, porque a alma daquele cuja religião é somente um hábito, está corrompida em pecados! Importa sofrer tribulações e, se você não as tem sofrido, tema e busque arrependimento junto ao Senhor e fé e determinação, na Graça e no poder do Sangue do Senhor, para que Ele, no Seu Espírito, misericordiosamente sopre sobre você e te torne vivo. E assim, quanto àqueles que lançaram as bases de nossa Igreja, os Apóstolos e Profetas no primeiro século, tanto mais importou que neles se completassem as aflições de Cristo, pela Igreja [Colossenses 1:24]. O sofrer aflições por causa da retidão é precioso, e comprova que como ovelhas, somos entregues à morte todos os dias, porque reputamos nosso próprio bem por menos do que o bem ao próximo e, sobretudo, toda nossa vida na Terra por menos do que o valor de nossa alma e da alma daqueles a quem anunciamos à Cristo, e este Crucificado, como Aquele desejado das nações, o único que abre-nos caminho ao céu.


Ora importa sofrer por Cristo, importa sofrer pelos irmãos, importa sofrer pela Verdade, mas não é de se ter alegria se um Cristão sofre justamente, ou seja, se sofre porque seus pecados, erros e maldades exigem reparo diante dos homens e diante do Altíssimo Juiz. Ser atribulado porque você falhou na criação dos seus filhos e, fora da Aliança, eles gastam suas vidas em bebederias, casamentos desfeitos e brigas; ser atribulado porque você se entremeteu ambiciosamente em negócios ilegais ou imorais, em espertezas que te proporcionam uma rápida ascensão social ou satisfazem seus desejos de deleitar-se nos prazeres do mundo; ser atribulado porque não consegue controlar suas paixões e perde seu tempo, equilíbrio e dinheiro com loterias, diversões baixas, ou na aquisição de carros e motos que mal cabem em seu orçamento; ser atribulado por causa de seus pecados, isto não é o que está aqui sendo destacado, nem é uma característica distinta do Cristão; antes, é uma característica de quem tem a ira de Deus sobre si e, eventualmente, uma característica de um Cristão ainda displicente e negligente em suas batalhas; entretanto, é, propriamente característica de um ímpio. Assim, importa sofrer aflições, por causa da justiça e retidão, por causa do Evangelho e de Cristo em nós, por causa da Igreja, do amor pela comunhão dos Santos; mas não pela injustiça e pela maldade que praticamos.


Importava, portanto, que antes que os novos céus e nova terra onde habita a justiça se revelessam, os Apóstolos e discípulos fossem confirmados em suas almas e engajados a continuarem na fé, por meio de muitas tribulações. Tal é a Igreja Cristã, e tal é o Reino de Cristo, tão contrário aos Impérios da Terra, que não encontra seu crescimento pelo domínio, nem pela força, nem pelo número de seus exércitos; mas pela submissão às autoridades civis (mesmo àquelas que proporcionam o mal) [

1 Timóteo 2:1-2; Romanos 13:1-7; 1 Pedro 2:17], por fazer o bem aos inimigos e orar por eles (e não por perseguí-los física ou politicamente)[Mateus 5.44-48], pela fraqueza (que nos leva ao martírio e não às armas) [Atos 4;35;5:40-42; 2 Coríntios 12:9], pela pobreza (porque o que temos, entregamos para os pobres e empregamos em tudo o que traz benefício espiritual e, ainda quando ricos, nos fazemos todos pobres, tendo, não prata ou ouro, mas o poder da Palavra) [Atos 3:6; Deuteronômio 15:7; Tiago 2:6; Efésios 4:28], e pela loucura (porque Deus escolheu a loucura da pregação para converter ao mundo) [1 Atos 26:24; Coríntios 1:18-25; 2:14]. Ora, a tribulação confirma os Santos, em lugar de os desanimar e afastar, porque a natureza da Igreja não é natureza do mundo; eis um Reino Espiritual, que tem glória naquilo que o mundo rejeita e, quando sofre o que para o mundo seria uma derrota, na verdade triunfa. Tal natureza da Igreja é tão fixa que, ainda quando, em determinado tempo ou lugar, temos um grande número em nossas fileiras e abundância em nossas mesas, é nosso dever contar com as mesmas armas espirituais de antes, não confiando nas temporais providências, mas mantendo os olhos no Senhor e, em amor, compartilhando nossos bens e número com aquelas partes da Igreja que não se encontram sob a mesma bonança. A Igreja está sempre em tribulações, porque tudo está encerrado sob pecado, para manifestação da Graça, e sofrimentos determinados, para manifestação de Cristo em nós; sim, mais uma vez destaco - eis que temos um Reino Espiritual; mas não em luta contra um reino material, antes, sobre e além de todas as riquezas e recusos temporais. Assim, aqueles que com Cristo, nosso Rei, se assentam, aqueles a quem foi destinado o reino, há de ser aquele que serve e que, antes da glória, suporta a Cruz [Lucas 9:23; 22:23-30]. Como já constatamos, nada poderia constrastar mais com as expectativas Judaicas de um Reino Teocrático estabelecido pelo Messias, do que esta realidade constantemente frisada pelo Senhor em Seu Discurso Escatológico.


Logo após serem enunciadas estas preciosas palavras, vieram as perseguições por parte dos Judeus; posteriormente, vieram as perseguições por parte dos pagãos; e logo, como suas sinagogas e assembléias maldosamente usavam suas influências para manobrar os poderes políticos do mundo e uniam as mãos com aqueles que perversamente ocupavam o poder, maldosamente se colocando ao mau serviço dos líderes corruptos, servindo e obedecendo primeiro aos homens e depois ao Criador (se, no todo, chegassem a obedecer algo da Palavra), andando junto com aqueles que deveriam beijar o Filho e servir como instrumentos de Deus [Salmo 2:9-12]; por tanto logo vieram as perseguições por parte do Estado, inicialmente sob Nero César. Boatos e propagandas espalharam o ódio contra os Cristãos e era dito que "os Cristãos odeiam a humanidade", "crêem em uma superstição levada a limites extravagantes", "uma superstição mortífera"; que eram "ateus" e "canibais", "incestuosos e imorais". Chamavam ao Cristianismo de superstição porque suas filosofias e suas religiões tradicionais não explicavam a Verdade Cristã; diziam odiarmos a humanidade porque conhecemos a miséria do homem natural, morto em delitos e pecados, e anunciamos a Ira de Deus sobre a humanidade; éramos extravagantes e mortíferos porque o Cristão dirigia toda sua vida à estrita obediência a Escritura e estava disposto a desgastar-se pela Fé; ateus porque não criam no que a sociedade comumente acreditava e, por fim, canibais porque a carne e o sangue de Cristo, tomados no Sacramento, eram tidos com tão grande estima e temor, que, pela Fé, ao falarem sobre a ordenança, o faziam de tal forma que verdadeiramente convenciam os ouvintes a respeito da sacralidade do que ali performavam; e incestuosos porque a fraternidade que havia entre os Cristãos era tão notável, e o amor que os unia era tão genuíno que muitos criam que as comunidades Cristãs eram formadas por irmãos cosangüíneos, filhos de um mesmo pai terreal, e não por irmãos espirituais, filhos de um mesmo Pai Celestial . Assim, eram odiados e perseguidos, contrariavam o mundo e exaltavam a nosso Senhor. Como nos falta esta Fé hoje, como estamos distantes de tais acusações por termos negociado e abrandado nosso testemunho e esfriado em nossa piedade.

É verdade que há muitos que dizem que as perseguições e tribulações encontram fim quando uma nação se cristianiza; porém, se a comunhão nacional da Igreja se nacionaliza, em lugar da nação se tornar Cristã, então, isolada em seu território nacional e dividindo o coração entre a Fé e o nacionalismo, tal comunhão nacional encontra a paz ilusória de um sepulcro caiado. Agora, quando o Senhor concede prosperidade a Sua Igreja em determinada região, de tal modo que ela influencia e abriga a nação sob a sombra de suas folhas e tal comunhão nacional se entrega à defesa e auxílio das congregações que, em outras partes do mundo, sofrem e lutam para pregar o Evangelho e levar luz às trevas, então não lhes faltará aflições. Veja que a Ilha da Madeira, no século XIX, era um lugar pacífico; pessoas do mundo inteiro viajavam para aquelas terras para descansar e recuperar sua saúde, o clima era agradável e o relevo belíssimo; homens cultuavam ao Senhor em suas casas, estrangeiros reunidos pacificamente enquanto não pregassem para o povo da ilha, que permanecia sob as garras da Igreja Romana. Quando o Rev. Robert Kalley e, porteriormente, o Rev. Hewitson, chegaram aquele lugar e a Palavra foi manifesta ao povo, então, a paz daqueles que têm nome de Igreja mas não o são, se dissipou e podia-se ouvir novamente o clamor de que "Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui" [Atos 17.6]. Que nossas orações sejam para que o Senhor, em Sua Graça, nos conceda tal espírito, de transtornar a Terra e sofrer aflições por causa da Justiça e de nosso Amor a Cristo Jesus e ao Evangelho.

Esperança em Tempos de Apostasia - Parte 10

Na última edição do Jardim Clonal, nos concentramos na primeira parte do Discurso Escatológico de nosso Senhor, sobre a espiritualidade do Reino de Deus, e iniciamos o estudo sobre os sinais e os tempos descritos ali. É a partir deste ponto, sobre os sinais e os tempos, que prosseguiremos nosso estudo.

Segunda Parte do Discurso: Os Sinais e os Tempos (continuação)

Então, Jesus lhes respondeu: Vede que ninguém vos engane. Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu! Eu sou o Cristo. E também: Chegou a hora! E enganarão a muitos. Não os sigais. E certamente, ouvireis falar de guerras e rumores de guerras, e revoluções; vede, não vos assusteis, porque é necessário que primeiro aconteçam estas coisas; mas ainda não é o fim, e o fim não será logo.” [Mateus 24:4-6; Marcos 13:5-7;Lucas 21:8-9]

Como é perfeita a Escritura! Somente o Espírito do Santo Deus poderia ter inspirado tais palavras, somente o Cristo, o Filho de Deus, poderia tê-las dito em momento tão oportuno – pois, enquanto os discípulos contemplavam a glória dos homens, pensavam nas coisas terreais e inquiriam curiosamente quanto aos secretos decretos Divinos pertinentes a História vindoura, nosso Mestre Jesus dirigiu-os para o cuidado com suas almas desde o presente e para as preocupações concernentes ao seu destino Eterno. Nosso Senhor (e seus Apóstolos, que sendo transformados pelo Espírito, assim também se tornariam posteriormente) é eminentemente piedoso – pastoral e prático, poderíamos dizer - professor da mais clara Verdade Bíblica, que nos alimenta a alma, e nisto frutifica visivelmente em nosso viver. Conhecer os sinais do fim dos tempos” é menos importante do que ter em si os sinais do novo nascimento” – sem o nascer do alto, jamais se pode ver realmente o Reino dos Céus, ainda que se conheça todos os seus sinais - por conseguinte, nosso Senhor Cristo Jesus começa Seu Sermão Escatológico com aquilo que ainda não é o fim [Mateus 24:6], mas que é, sobretudo, uma indelével marca de que haverá um fim, de que a Redenção da Criação ainda não se concretizou plenamente; de que o novo céu e a nova terra, que já adentraram a presente era, ainda estão sendo edificados para a Eternidade; de que o pecado ainda consome e destrói as almas dos homens; de que devemos temer por nossas almas e buscar, com verdadeiro arrependimento enquanto ainda há tempo, Àquele único que pode salvá-las. Deste modo, aquele que se preserva em Cristo e nEle, por meio de Sua Graça, aparta-se de todo mal – aquele que teme a condenação certa que paira sobre o mundo e sobre todos os que amam o presente século - resistirá a qualquer tribulação, seja qual for. Este é, portanto, o alerta de nosso Mestre: Vede que ninguém vos engane”; donde, entende-se “tenhais zêlo pela Verdade do Evangelho, que pode libertar-vos dos vossos pecados e desviar de vós a Ira de Deus; sigais-me e não sejais seduzidos para outros caminhos, mantenhais-vos atentos à Palavra.” Repito ainda mais uma vez: que precioso alerta nosso Senhor nos deu! Pois notemos que mesmo os discípulos já estavam, de certa forma, seduzidos por uma falsa esperança de segurança, uma falsa esperança de uma breve e descomplicada vitória [Marcos 10:37] - contaminados que estavam pelo fermento da doutrina Judaica - a qual, por sua vez, semeia a apostasia ao infundir nos homens tal confiança carnal, bem como a perversa impressão de que importa que Deus antes os livre dos seus perseguidores e das tribulações do que de seus pecados e indulgência. Os falsos mestres amam as elucubrações escatológicas complexas, as quais prometem apaziguar a carne e alimentam um maldito orgulho espiritual, dando aos homens a impressão de que decifraram os secretos decretos do Altíssimo [1 Tessalonicenses 5:1,2; 2 Tessalonicenses 2:2; Atos 1:7]. Ora, desde os dias dos Apóstolos até ao fim da História haverá falsos Cristos, falsos profetas e falsas igrejas. Muitos se arvoraram e se arvorarão em levantarem suas Bíblias e dizer Jesus Cristo é o Senhor”; muitos falsos mestres gritaram esta frase nas praças públicas e exaltaram a si próprios com extravagantes exorcismos [Atos 19:13], e muitos ainda gritarão; e escreverão, como já tem escrito, estes dizeres na frente de seus templos e na porta de suas casas; porém, não basta dizereem “Jesus Cristo é o Senhor”, e não basta ostentarem este lema (ainda que o escrevessem em suas próprias frontes), não basta acercar-se de milagres e grandes prodígios, não basta – antes, ter estes fenômenos em tão alto apreço é mais um tropeço do que um auxílio [João 4:48;20:29; Atos 8:13,18-23; 1 Coríntios 1:22-25; 2 Tessalonicenses 2:9; Apocalipse 13:13;16:14; Deuteronômio 13]. Em verdade, nem todo o que se proclama servo do Altíssimo é um Cristão [cf. Mateus 7:21]; pelo contrário, aqueles que tem aparência de Cristo, o manso Cordeiro, muitas vezes falam como o Dragão, que é Satanás, a antiga serpente [cf. Apocalipse 13:11]. Muitos se dizem Cristãos, muitos se dizem mestres, sábios e poderosos, “muitos virão em meu nome … e enganarão a muitos” [Mateus 24:4-6]. Contudo, em verdade, bem poucos são os Cristãos verdadeiros [Mateus 20:16; 22:14]. Deste modo, em Seu Discurso Escatológico, o Senhor Cristo Jesus aponta, em primeira ordem, para este grande perigo que são aqueles que podem nos desviar do Caminho e nos atrair, mesmo que temporariamente, para desvios mortíferos; para aqueles que utilizando o nome de Cristo, pregam falsas doutrinas e, pretensiosamente, clamam ter poderes e prerrogativas que pertencem somente ao Salvador; homens que se colocam em lugar de Cristo, ousando evocarem bênçãos e maldições, pretensamente condenarem e salvarem, e conclamarem os homens para que, por sua própria força, vontade e decisão, dominem sobre o mundo, como se a semelhança daquelas ilusões judaicas que quase seduziram os discípulos pudessem trazer o Reino de Deus à Terra (ou à si mesmos). Quando tais enganadores vêm, devemos resistí-los pela Palavra. Amados irmãos, se curvem somente ao que a Escritura ordena: não se deixem enganar por promessas de vitória e conquista, por devaneios e imaginações daqueles que pensam que Deus se agrada de ser adorado segundo as vontades dos homens - miseráveis e corruptas criaturas Suas. Vejam que foram promessas de instantânea paz ao mundo, de riqueza e poder temporais e imediatos; foram messianismos; foram ilusões de que Deus pode ser manipulado segundo os interesses humanos e de que as Suas Palavras podem ser usadas também segundo estes mesquinhos interesses; foram coisas como estas que, nos dias dos Apóstolos, irromperam em grande número, da forja corrupta que é a mente dos apóstatas. Sim, naquele tempo se levantaram inúmeros impostores [cf. Atos 5:36-39; 8:9-11; 2 Pedro 2:1-21; 1 Timóteo 1:3-11; 1 João 2:18], mais ainda do que temos visto hoje, e arrebataram multidões atrás de si. E assim, em todos os períodos da História, quando o julgamento de Deus visita-nos (para condenar os ímpios e aperfeiçoar os justos), Ele muitas vezes o faz através das tentações de apostasia e da ameaça dos inimigos da Fé [cf. Juízes 3:1,2]; e, quando sua Igreja, então provada e refinada, quebrantada e suplicante, levanta-se em Santidade, o Senhor nisto os abençoou e fortalecerá [cf. Êxodo 15:25; Juízes 2:18;Isaías 51:13-16;61:1-11; Jeremias 9:7; Salmo 66:5-12]. Como os ímpios rejeitam a voz dos verdadeiros profetas, cujas palavras estão permanentemente fixadas na Escritura, o Senhor os entrega aos falsos profetas [Deuteronômio 13:3; Isaías 29:10] para que sejam enganados e pilhados po tais; e tanto mais, tendo acumulado sobre si mesmos o sangue dos profetas do Senhor, e tendo chamado sobre si mesmos o Sague do próprio Senhor e Cristo, a Jerusalém foi, como parte e prenúncio da sua derrocada, rejeição e destruição, entregue aos falsos cristos e demais enganadores, que dividiram ainda mais o povo em partidos e facções rivais que fomentaram revoluções e reveldias tais que somente aumentaram e atrairam sobre si a espada do Império, que não era outra senão a espada da Ira de Deus.

Nosso Senhor alertou também para o que seriamguerras e rumores de guerras” as quais, igualmente, servem de instrumento em Suas mãos para provar os justos e para destruir os homens (e os reinos) malignos. Quando Cristo nasceu, houve uma grande paz entre as províncias de toda aquela região e isto foi uma grande obra da Providência para o progresso do Evangelho; mas não foi para trazer ou manter a paz que o Senhor veio ao mundo [Lucas 12:51], e, uma vez tendo sido perseguido pelos Judeus, uma vez tendo sido objeto de escárnio e afronta, então a paz foi então retirada de entre eles e não mais se apartou de seu meio a já citada espada da Vingança Divina. Ora, naquela grande Revelação da Glória, quando os velhos céus e a velha terra passaram (a saber, o Estado e a Religião Judaicas, cujas sombras prenunciavam a perfeita religião que há em Cristo Jesus), quando, pelas dores de parto se anunciava o nascimento da Igreja, então uma dramática quantidade de falsos mestres, falsos cristos e guerras assolaram o mundo conhecido, especialmente a região da Judéia; a paz, em todos os sentidos, foi retirada de entre aqueles povos (e isto foi de tal maneira que de 66 d.C. até 71 d.C, todo o Império esteve terrivelmente atribulado, e cinco césares se sucederam no trono, com um intervalo de poucos meses entre eles, tendo todos morrido de forma violenta). À cada nova visita e revelação da Glória, à cada nova visita, julgamento e vivificação que o Senhor, em Seu Espírito, traz ao mundo, pela Palavra e Graça, assim também, outras dramáticas guerras e outros falsos mestres e falsos cristos têm se levantado: assim foi no tempo da Reforma Protestante, quando Deus novamente visitou com glória Sua Igreja para vivificá-la e edificá-la, para exaltar a Cristo e fazer conhecido o poder de Sua Palavra; Reforma que foi acompanhada de malignos adversários da Palavra, hereges que desafiavam aos Reformadores e escandalizavam o Evangelho, bem como de muitas e terríveis guerras, com grandes julgamentos de Deus, (destruições enviadas sobre países inteiros, como as revoluções anabatistas e o saque de Roma); da mesma forma sucedeu no tempo dos Puritanos, com terríveis perseguições, revoltas e massacres na Inglaterra e Europa. Ouviremos de guerras e rumores de guerras e de falsos Cristos e falsos profetas em todas as eras da humanidade, enquanto o Senhor julga entre os povos e corrige as nações e estas convertem suas espadas em arados e não mais levantem a espada contra outra nação, nem mais aprendam a guerra” [cf. Isaías 2:4]: Isto é esperado a todos os que, como fizeram os Judeus do primeiro século, rejeitarem a Cristo Jesus e a Sua Palavra de Salvação portada por Seus ministros; sim, a todos os que recusarem a Salvação que o Evangelho anuncia e se fizerem rebeldes contra o Deus dos Exércitos, que lhes diz: Sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nEle com tremor. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira” [cf. Salmo 2:10-12]. Portanto, nem nós, hoje, bem como nem os discípulos e os Apóstolos, naquele tempo em que o Senhor proferiu Seu Discurso Profético, devemos nos conturbar quando virmos estas entristecedoras marcas da Queda; antes, isto nos consolará pois, ainda que não seja o fim, é um firme sinal de que ele virá. Sim, não devemos nos perturbar, antes confiarmos no Senhor e vigiarmos para não sermos aturdidos em nosso progresso Cristão, na mortificação de nossos pecados, na edificação da Igreja; devemos descansar no Senhor, sabendo que Ele opera tudo para o bom propósito da Glória de Seu Nome e para a Salvação daqueles que Ele elegeu desde antes da fundação do mundo; sabendo ainda que é necessário que o Senhor derrame Sua ira sobre os povos (ainda que nem sempre o faça de maneira clara), para assim restringir a maldade do mundo e, como já foi dito, para assim acrisolar Seu povo; sabendo igualmente que é necessário remover, como outrora Ele o fez com Jerusalém, e abalar, as coisas antigas e velhas para que aquilo que é Eterno se estabeleça [Hebreus 12:11,27-29]. Outrossim, da mesma forma como a destruição de Jerusalém foi o fim do mundo antigo e a inauguração da revelação do mundo vindouro, este mesmo sinal se repetirá ainda muitas vezes, confirmando o que ele mesmo tipifica: que o Senhor cumprirá todas as promessas dadas pelos Seus profetas desde o início dos tempos. Haverá falsos cristos, falsos mestres e falsos profetas, haverá guerras e rumores de guerras, e isto ainda não é o fim; temos, portanto, razão para Esperança, razão para enfrentarmos cada tribulação, seja pessoal ou global, cada apostasia, cada heresia, sabendo que o Senhor nos prova em cada uma destas coisas e que, sendo boníssimo e misericordioso, Ele nos acrisola, como acrisola-se a prata, e retira de nós, por muitas batalhas, a escória que é o nosso pecado natural; sirva-nos isto de alerta para que fique suficientemente claro o quão corrupta é a natureza do homem, o quão grave é a morte a que nos levou a Queda de Adão e o quanto o Pecado é a pior de todas as pragas e chagas que o Universo conhece, sendo necessário combatê-lo por tão violentos métodos, tanto quanto são estes, os quais o Senhor, em toda Sua Sabedoria, Paciência e Amor, escolheu aplicar. Graças ao Senhor, e Glória e Louvores, pois Ele governa a História e jamais permitirá que tão peçonhento inimigo domine sobre Sua Igreja; pelo contrário, como veremos na próxima edição, os sinais e promessas a respeito do fim da História são doces, para que, em meio a esta guerra espiritual contra o Pecado, tenhamos uma firme visão da Vitória do Evangelho e do poder de Deus para fazer todas as coisas convergirem para a Glória de Cristo Jesus, nosso Rei, Profeta e Sacerdote Eterno.

Os versículos seguintes do nosso presente estudo continuam falando dos sinais e dos tempos proféticos. Mais uma vez ressalto que os Judeus esperavam que com o advento do Messias, possivelmente com algum cataclismo, o Reino Teocrático seria estabelecido em Israel, que dominaria todo o mundo; eles esperavam que esta era de ouro, este mundo porvir fosse imediatamente e plenamente introduzido por ocasião do advento do messias, que destruiria toda a presente ordem dos séculos. Entretanto, biblicamente, iluminados pelo Espírito com a mais clara luz do Novo Testamento, aprendemos aqui que o mundo porvir, sendo de natureza espiritual, é um Reino supranacional e invisível, uma nação santa espalhada por toda a Terra, composta de todos os homens chamados pelo Evangelho e unidos, pela Fé, a Cristo Jesus, o Rei e Sumo-sacerdote de nossa confissão.

Esperança em Tempos de Apostasia - Parte 9

Continuamos nosso estudo da Escatologia Bíblica observando aqueles mesmos eventos nos quais meditávamos ao fim da última edição: a convulsão das nações, guerras e rumores de guerras tais, que levaria a Jerusalém estar “cercada de exércitos” [Lucas 21:20] com o “abominável da desolação onde não deveria estar” [Marcos 13:14]. Coisas estas as mais terríveis e duras, as mais assustadoras para a mente dos nossos irmãos da Igreja da Judéia, que temiam ter de fugir durante um inverno cujo clima é intempestivo ou ficarem presos na cidade quando, no Sabbath Judaico, os portões se fechassem [Mateus 24:20;Marcos 13:18]. Estas são algumas das previsões contidas no Discurso Escatológico de nosso Senhor; previsões que, erroneamente, muitos dirigem para um futuro distante, contudo, como veremos a seguir, falam de um momento que para nós é passado (a queda de Jerusalém e a destruição do Templo em 70 d.C.), enquanto nos dão, ao mesmo tempo, uma preciosa lição do Governo de Deus sobre a História para que, a partir daí, no desenvolver do discurso, vislumbremos o Fim da História com a segunda vinda de Cristo Jesus.

Primeira Parte do Discurso: O Reino de Cristo é Espiritual

“...dizendo alguns a respeito do templo, que estava ornado de formosas pedras e dádivas” [Lucas 21:5]... quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo.[Mateus 24:1] ...disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! [Marcos 13:1] E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios?... [Marcos 13:2] ...Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada” [Mateus 24:2]

Assim inicia-se o já tão referido Discurso, mas não sem um elucidativo contexto antecedente – no Evangelho de São Marcos e no Evangelho de São Lucas ele é precedido pela Parábola dos Vinhateiros [Marcos 12:1-12; Lucas 20:9-19] que anuncia o fim da administração judaica e a passagem da vinha para outros administradores, que darão o devido fruto. Note que a figura da vinha, usual no Velho Testamento, fora usada para representar Israel [Salmo 80:8-16; Isaías 5:1-7; Jeremias 2:21; Ezequiel 15:1-8; 17:5-10, 19:10-14; Oséias 10:1], porém com um objetivo específico: diferenciar entre a semente fiel que o Senhor plantara e o fruto degenerado que a nação produziu. Introduz-se, portanto, também pela figura da vinha, o conceito da Graça do Senhor, que elege e sustenta um remanescente, uma porção fiel, um Israel verdadeiro, espiritual, oculto, visivelmente unido, porém espiritualmente separado da nação apóstata e dos povos pagãosa vinha do Senhor era a manifestação da Santidade dEle na Aliança, pela Graça, em conformidade com o Espírito Santo, que escrevia a Lei no coração destes homens escolhidos e chamados pelo Altíssimo; a corrupção se distinguia e exaltava quando esta, a verdadeira vinha, esta que era o fruto da Salvação em Cristo, era quase que totalmente envolvida por uma outra vinha, de uvas bravas, donde não brotavam justiça, paz ou misericórdia. O soberbo judaísmo apóstata transformou a vinha no símbolo do nacionalismo judaico, chegando até mesmo a cunhar moedas contendo este símbolo, à época dos Macabeus; o tradicionalismo, o tribalismo, a etnicidade suplantou a misericórdia e a justiça. Entretanto, nosso Senhor, o Cristo, destrói as ilusões de superioridade do judaísmo – a vinha foi tirada daquela nação, a boa semente, outrora oculta, foi visivelmente entregue aos novos signatários de uma Nova Aliança; uma nova nação, sem fronteiras territoriais, tribais ou étnicas. Por isso nos diz nosso Senhor, segundo o Evangelho de São João: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador... Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem.” [João 15:1,5-6]. No Evangelho de São Mateus a declaração é ainda mais clara, pois são pronunciados oito ais sobre os Escribas e Fariseus, representando neles o espírito do judaísmo de Jerusalém e, assim, personificando neles a própria Jerusalém Terrena, corrupta, apóstata a qual terá sua casa tornada deserta [Mateus 23], exatamente como nos mostra a figura dos ministros da Palavra no Velho Testamento, que pronunciaram ais contra os falsos profetas e ímpios de seu tempo [Isaías 5:8-30; Jeremias 23:1-6]. É impressionante como o paralelismo entre a Parábola dos Vinheteiros e os ais do Evangelho de São Mateus (e mesmo de Isaías 5) é explícito e perfeitamente articulado, especialmente se tomamos como um dos eixos as palavras do Evangelho de São Mateus, Capítulo 23, versículos 34 até 36, onde está escrito: “Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração.

Tendo determinado e encontrado o padrão e quadro que descreve o juízo vindouro sobre Jerusalém, podemos recuar alguns Capítulos no Evangelho de São Mateus e perceber que, já há algum tempo, aquela geração estava sendo advertida por sua falsidade e hipocrisia [Mateus 23:3,28,33; cf. 21:30], reveladas na grande pretensão de substituir o arrependimento e fé verdadeiros pelos ditames de sua falsa religião, intentando tomar somente para si a esperança celeste, [Mateus 23:23-24], e fazer de si mesmos a única porta para o céu [Mateus 23:13,14,16; cf. Mateus 15:6]. Em lugar desta pretensão, o judaísmo dos Escribas e Fariseus, na verdade era uma porta para o inferno, concebida e alimentada por Satanás [Mateus 23:17-19,24; 15:6; João 6:44;] - colocavam-se, portanto, temerariamente no lugar que é devido somente ao Senhor. Foi nesta tão maligna obra que eles encontraram razão para perseguir e matar os profetas, e foi nesta doutrina maligna que encontraram seus motivos para perseguir e matar a nosso Senhor, bem como aos Cristãos da Igreja Primitiva [Mateus 23:29-35; cf. 21:36-39; 22:6; Atos 6:12-15]; igualmente foi nesta sinagoga de Satanás que se fez transbordar o cálice da Ira de Deus, o qual já vinha sendo, pouco a pouco, preenchido pela vinha brava de uvas bravas chamada Israel. E assim a sentença fora dada: serão estes excluídos do Reino dos Céus e entregues ao fogo e às trevas da Vingança Divina [Mateus 23:35, 38; cf. 21:31, 41, 43-44; 22:7]. O que foi um breve castigo sobre a nação, mas uma prova final sobre o remanescente fiel, à época do profeta Jeremias, se torna então em um aviso que ecoa nas palavras de Cristo – ao que Jeremias outrora anunciara: “Mas se não derdes ouvidos a estas palavras, juro por mim mesmo, diz o SENHOR, que esta casa se tornará em desolação” [Jeremias 22:5]. Esta mesma sentença Cristo agora ratifica e promete a execução: “Eis que vossa casa ficará deserta” [Mateus 23:38]. Como na época descrita no Livro de Juízes, o povo que aparentemente se arrependera, veio posteriormente a se tornar pior do que a geração de seus pais. E é neste ponto então, que a Glória de Deus visita o Templo pela última vez, a Glória que nem o Templo de Salomão presenciara, a perfeita imagem do Deus invisível – Cristo Jesus [Colossenses 1:14,15]. Glória que não mais voltaria ao Templo, uma vez que o verdadeiro Templo é a verdadeira videira [João 1:14; 2:18-22], a saber, nosso Senhor, a pedra de topo e a pedra fundamental de um Templo de pedras-vivas unidas misticamente nEle [Mateus 21:42-44; Atos 4:11; 1 Pedro 2:1-9] – o Sumo-sacerdote da nossa Fé e o último e eficaz sacrifício pelos nossos pecados [Hebreus 4:14-16; Hebreus 9:26; Hebreus 10:10; João 19:30]. O Templo de Jerusalém, que havia se tornado um covil de ladrões, foi purificado de uma vez por todas ao ter, somente em Cristo, seu caráter espiritual revelado e seu propósito cumprido.

O que aos discípulos fora motivo de autoglorificação e confiança carnal em sua herança sangüínea, para Cristo era apenas a triste visão do ícone de um povo perdido em sombras, povo este que amou as trevas e rejeitou a vera luz, o vero Templo e o vero Sacrifício que se lhes apresentou em Jesus. Somente em Cristo a Glória derradeira de Deus habita entre nós e, com Ele, pela Sua Graça e benevolência, esta se faz presente em Sua Igreja; nEle o sacrifício vicário pelos pecados de Seu povo, de Sua nação, que é a Sua Igreja, derradeiramente se cumpre; nEle a comunhão e as orações de Seu povo, de Sua nação, de Sua Igreja, são recebidas por Deus Pai, revestidas na Justiça de Cristo; dEle flui o rio de águas vivas, que, no Espírito Santo, pelo Evangelho nos regenera e nos desperta para a Verdade. Assim nEle se cumpre tudo o que prefigurava o Templo e as suas cerimônias [Gálatas 4:9; Colossenses 2:14- 17; Efésios 2:15]. No Evangelho de São João, Capítulo 4, versículo 21, nosso Senhor aborda esta questão precisa quando diz: “a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.” e explica, no versículo 23, “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem.”. Esta gradual revelação da espiritualidade do culto, tanto pela ausência de um centro geográfico de adoração, quanto pela ênfase na Verdade – verdade doutrinária a ser pregada, verdade litúrgica a ser obedecida, verdade de vida em arrependimento e fé – carrega consigo a notícia do fim das sombras veterotestamentárias e do crescimento do Sol da Justiça com Sua inigualável luz, a qual atinge todos os povos da Terra para libertá-los do pecado e guiá-los para além dos rudimentos do mundo (o que vemos anunciado também no Evangelho de São Mateus, Capítulo 21, versículo 13, como referência à promessa messiânica do Livro do Profeta Isaías, Capítulo 56, e ao alerta contra a carnal confiança no Templo constante no Livro do Profeta Jeremias, Capítulo 7 – e que já iniciava o tratamento do referido tema do Evangelho de São Mateus, Capítulo 23, cuja aplicação e extensão escatológica se encontram no capítulo seguinte, sobre o qual temos voltado nossa atenção e meditação).

Concluímos, portanto, que a primeira parte do Discurso Escatológico de Cristo é o prenúncio da concretização da realidade espiritual constante dos desígnios de Deus em todo o Velho Testamento, mas oculta em sombras até o dia da Revelação de Cristo Jesus e do firme estabelecimento visível de Seu Reino e de Seu Povo, como Seu Templo-vivo de pedras-vivas, com Seu sacrifício vicário final e perfeito, com Seu sacerdócio Santo e Eterno. O Templo seria destruído, e com grande Ira, é o anúncio de Cristo - porque já não há mais lugar para ele – tendo a vera Luz vindo ao mundo, não há mais necessidade das velhas sombras. Não ficará pedra sobre pedra daquele velho mundo e daquela antiga era, daquilo que era inferior e obscuro, e que se tornara, pela economia Divina, obsoleto [Hebreus 9:8-15; 10:1-3; 8:4-13]. Tudo isto nos mostra o quanto era vã a confiança no sistema mosaico como se, per si, o exercício externo da religião pudesse levar ao conhecimento de Deus, bem como hoje é vã a expectativa de parte dos atuais Judeus (e mesmo de parte do cristianismo judaizado e sionista dos dispensacionalistas e de alguns dominionistas) de que haja, no futuro, a reconstrução do Templo de Jerusalém. Reitero: o único Templo que agrada ao Senhor já foi erguido, e não por mãos humanas [Atos 7:48; 17:24] – a reconstrução do tabernáculo caído de David e do Templo de Zorobabel se realizaram, pelas Divinas mãos, na ressurreição de Cristo e na Sua Glorificação, as quais tomamos parte como Igreja, como Corpo de Cristo [Atos 15:18; Amós 9:11,12; I Coríntios 12:27; Efésios 2:21; 4:12,16; 5:23; 1 Pedro 2:5-9].

Segunda Parte do Discurso: Os Sinais e os Tempos

“E, assentando-se ele no Monte das Oliveiras, defronte do templo, Pedro, e Tiago, e João e André lhe perguntaram em particular: Dize-nos quando serão estas coisas, e que sinal haverá quando todas elas estiverem para se cumprir - a sua vinda e o fim do mundo?”[Marcos 13:3,4;Mateus 24:3]

Sentado sobre o Monte das Oliveiras, observando toda a cidade, sob o sol poente, destacava-se mais ainda a beleza e a grandiosidade do Templo – beleza e grandiosidade tais que eram opostas ao que aquele edifício havia se tornado, um lugar vazio da verdadeira religião. Contemplando esta pequena distopia, os discípulos dirigem-se ao Senhor e formulam uma dupla questão: (1) quando estas coisas preditas ocorrerão; e (2) como tal coisa chegará a ocorrer. Ao mesmo tempo, eles classificam o objeto de suas indagações como: a sua vinda e o fim do mundo. Atentemos que há um sentido em que esta sobreposição a vinda de Cristo e o fim do mundo – é verdadeira; a concepção dos discípulos, naquele momento, ainda é imatura e ingênua, mas a sua apreensão daquilo que já estava sendo descrito por Cristo há algum tempo, ou seja, o fim da velha ordem e o estabelecimento da Nova Aliança, é o que sustenta esta múltipla pergunta. Relembremos o que foi descrito nas últimas edições:

1) Na escatologia veterotestamentária a distinção entre “a era porvir ou o mundo vindouro” e o advento do Messias é muito tênue. Portanto, a extensão temporal da introdução da era messiânica sobre a presente era se dissolvia na perspectiva profética; o que leva os discípulos (em menor escala) e os judeus a espera de uma introdução cataclísmica da era porvir com o advento do Messias e a suposição de que a era porvir não seria mais do que um mundo presente superabundante e dominado pelo Estado Teocrático de Israel.

2) O termo “fim do mundo” no Evangelho de São Mateus, Capítulo 24, versículo 3, pode ser mais precisamente traduzido como “fim da era” ou “fim dos tempos”, do grego aion, o que não se refere ao fim do mundo físico, da Criação, mas de um determinado estágio da administração de Deus sobre a História; em 70 d.C., quando a destruição do Templo ocorreu, a era judaica, o tempo da nação de Israel, ou seja, a administração da História na qual os oráculos de Deus foram entregues e guardados por um povo em especial, chegou ao fim. O termo “fim da era” refere-se, portanto, à aurora da “era messiânica”, ou seja, da revelação da Igreja neotestamentária e da introdução, pouco a pouco, da redenção da Criação pela qual Cristo deu Seu Sangue precioso na Cruz – Ele morreu pelos nossos pecados, para que aqueles que foram Eleitos na Eternidade passada sejam Salvos e, no futuro sem fim, vivam com o Senhor na Jerusalém Celestial [Filipenses 3:20,21]. O “fim da era”, conforme descreve o Apóstolo Paulo, chegou sobre a geração de Cristãos do século I [cf. 1 Coríntios 10:11], assim como chegou sobre eles (e sobre nós já é), o “mundo vindouro”, no qual já estamos inseridos pela nossa união com Cristo [cf. Efésios 1:3,20;2:6;10:3; Apocalipse 5; Gálatas 2:20; Colossenses 1:13; Hebreus 12:18-24; Romanos 8:9-11]. Já é chegado o Reino de Deus: pois Cristo, na plenitude, no cumprimento, ou seja, no fim dos tempos, fez o último e perfeito sacrifício pelos pecados [cf. Hebreus 9:26]!

Portanto, a resposta distribuída, recapitulada e explanada cuidadosamente na extensão dos Capítulos 24 e 25 do Evangelho de São Mateus (e nos textos sinópticos), assim como em pequenos trechos até culminar no fechamento, profético e escatológico do Capítulo 28, visa explicitar o caráter espiritual do Reino de Cristo, tanto em sua expansão e vitória futuras, quanto em relação às batalhas e dificuldades constantes em todo o tempo desta expansão e vitória, até o dia final, quando em Glória voltar o Senhor para encerrar a História.

É com este entendimento a respeito do contexto histórico e teológico em que os discípulos discutiam e entendiam - e posteriormente explicaram - a Escatologia Bíblica, que continuaremos, na próxima edição, o estudo do Discurso Profético de nosso Senhor no Monte das Oliveiras.

Milagres! - Parte 2

O Problema do Naturalismo

Vimos na última Edição que o espírito moderno crê em algo chamado Naturalismo. Vimos que esta idéia afeta todas os pensamentos subseqüentes do homem que foi capturado por este espírito, pois leva esta homem a articular toda sua compreensão do Universo baseado na ausência total ou prática do Deus Soberano. Finalmente, mostramos que o conflito que o descrente trava com as Doutrinas que a Escritura ensina repousa neste nicho, pois a acusação subentendida em todas as críticas do descrente é contra a Soberania de Deus e não contra a lógica ou o conteúdo do ensino Cristão isolado. Por isso, quando o espírito moderno diz que não acredita na Escritura porque é impossível, pelas Leis da Natureza, que o Mar Vermelho se abra, na verdade o que ele está dizendo é que não acredita na Escritura porque ele já crê em outros deuses e nenhum deles poderia fazer o Mar Vermelho se abrir, e que ele mesmo, como seu próprio deus, não poderia fazer tal coisa. O que os deuses dos cientistas não podem fazer, eles chamam de impossível. Então, alguém me pergunta: você está me dizendo que, um cientista que duvida da Bíblia, o faz porque crê em deuses pagãos e porque crê que ele mesmo é um deus?! Sim. Talvez você nunca tenha percebido isto porque não conhece o suficiente sobre a Filosofia da Ciência, sobre a Filosofia da Bíblia e sobre o paganismo para relacionar estas três coisas. Homens de reconhecida inteligência, Filósofos da Ciência e possuidores de algum conhecimento da Escritura concordariam comigo, embora usassem suas próprias palavras para dizê-lo. Posso citar entre tais homens: Albert Einstein, Thomas Edison, Sir Martin Rees e Karl Popper. Para os tais há um abismo entre a realidade percebida pelo empirista, ou seja, pelo homem que confia somente em seus sentidos para determinar a Verdade, e a realidade última, afinal, o ato de medir perturba o sistema – não que estes homens não acreditassem em uma realidade estável, mas que assumiam, com sabedoria e humildade, que a realidade última é mais estranha e inacessível do que geralmente se pensa. Acrescento que não defendo com isto o "deus das lacunas", ou seja, que a validade ontológica do argumento sobre a existência de Deus que se baseia na ignorância humana; antes chamo a atenção para uma compreensão menos determinista das chamadas Leis Físcas (e mais "cega", por si só fenomenologicamente caótica na interação dos meios, ainda que metafisicamente ordeira quanto ao fim) - assim, não é uma questão de desconhecermos o Universo, mas de conhecermos que as tais Leis têm, na Realidade, remendos e saídas de emergência que nos permitem vislumbrar a harmônica e lógica ligação entre o comum e o raro, onde uma regular imprevisibilidade dá o tom à sinfonia dos sistemas. Voltando ao tópico anterior, note que estes são apenas uns poucos de uma lista de centenas de Filósofos cientistas, que compreendem e anunciam sem temor o fato de que a ciência, conforme tudo que foi brevemente exposto acima, é, especialmente dada a natureza da Realidade e a limitação do método empírico, pura especulação, desprovida, então, de qualquer relação firme entre as suas teorias e a “real realidade”. Exatamente como os deuses pagãos, a ciência é apenas uma elaborada Mitologia. Afinal, o que eram estes deuses pagãos mitológicos? Eram forças, ditas incompreensíveis, autogovernadas, personificadas e usualmente representadas através de contos e narrativas. Para muitos dos Filósofos pagãos, no entanto, as personificações eram apenas ilustrativas, enquanto as forças representadas nestas personificações eram reais. Assim, um Filósofo poderia usar o nome Zeus ou Brahma (nomes de deuses pagãos) para representar a idéia de um evento cósmico que deu início ao processo natural e daí especular sobre a origem da natureza, ou o nome Gênio para especular sobre os diferentes sistemas do organismo humano e a complexa cadeia de sua interdependência. Quando um cientista inventa uma entidade cósmica como a Gravidade, ele está fazendo exatamente isto – supondo a idéia de um ser que poderia preencher a lacuna daquilo que o cientista não pôde explicar a respeito da Criação. Agora alguém me pergunta: Você está me dizendo que a Gravidade é como um deus mitológico? Sim, estou. Não que os efeitos associados ao nome Gravidade sejam mitológicos se eu arremessar uma pedra para cima, ela cairá na minha cabeça. Mitológica é a idéia de que existe uma força onipresente e irresistível (porém invisível) responsável por fazer as coisas caírem – isto é apenas um conceito concebido artificialmente para preencher os requerimentos necessários a certo número de cálculos e teorias em um sistema específico. A observação dos efeitos e a medição dos efeitos são coadunadas no conceito Gravidade – a Gravidade em si, como objeto ou ente, não existe no mundo real, mas é uma simplificação mitológica da realidade, elaborada com um fim específico. Quando novos dados surgem, a ciência abole este mito e o substitui por outro – basta comparar a física de Newton e a física Quântica para ver esta mudança de paradigma. Não há, no entanto, nenhuma garantia de que a mudança de mitos seja uma aproximação maior da realidade. Muitas vezes a ciência gira ao redor do mesmo assunto, sem concluir nada durante séculos. Famoso é o caso da quintessência ou éter luminoso que por um pouco é aceito como científica, logo é descartado e novamente retomado, então com um novo nome. Para trazer um exemplo mais próximo ao homem comum, pensemos um pouco sobre o Átomo. Quando você estuda sobre Átomos na escola, você aprende que eles são feitos de Prótons, Elétrons e Nêutrons. Este Átomo que você estudou na escola é Mitológico. Ele não existe de verdade – foi criado por algum cientista para responder a certas perguntas sobre a natureza e elaborar algumas teorias. Outros cientistas elaboraram outros modelos de Átomos antes disso, modelos que não possuíam estas subdivisões e, após isto, outros têm elaborado modelos que possuem várias outras partículas além de Prótons, Elétrons e Nêutrons. Imagine que a Bíblia possuísse algum versículo sobre Elétrons – uma passagem que mostrasse um objeto de metal desferindo um choque de grande voltagem em alguém. Os cientistas da época em que não se conhecia Elétrons diriam: isto é impossível; um objeto não tem eletricidade em si mesmo para ser capaz de fazer tal coisa, não acreditaremos neste milagre, ele é contrário às Leis da Natureza, não pudemos sequer reproduzir tal coisa em laboratório, mesmo com toda nossa tecnologia. O que, segundo vimos acima, significa: nenhum dos deuses da ciência tem este poder; então, não aceitaremos que o seu Deus o tenha. Já os cientistas da época em que os Elétrons foram descobertos diriam: isto não é um Milagre, são apenas Elétrons sendo descarregados pelo objeto. E esta última frase mostra o quanto o Naturalismo é inútil – se algo não couber nas Leis da Natureza conhecidas daquela época (ou seja, nos poderes dos deuses inventados pelos cientistas), então é impossível que tal milagre aconteça. Se couber nas Leis da Natureza conhecidas naquela época (ou seja, nos poderes dos deuses dos cientistas), então não é um milagre, é apenas uma coisa natural. Você percebe a incoerência? O espírito moderno pressupõe que a natureza funciona por si só, e é composta de diversos pequenos poderes que se limitam uns aos outros e sequer avalia que esta é uma proposição que exige uma fé cega, e que, portanto, é incapaz de interagir com a descrição do Universo proposto pela Bíblia. Não estou dizendo que seria esperado do ímpio cientista em questão um respeito pela Escritura, mas que o sistema lógico do Naturalismo é incapaz de escapar de si mesmo! Se confrontado com algo que as Leis da Natureza inventadas ou interpretadas pelos cientistas não explicam, então é impossível; se for algo que elas explicam, então, não é um Milagre. Ou seja, o homem que se acha tão racional e científico está impedido de pensar neste assunto porque, antes mesmo da discussão, já foi capturado pela armadilha naturalista e simplesmente não sabe mais pensar fora deste script. Lembremos, para ilustrar nosso exemplo, do que a Sagrada Escritura nos diz sobre Eva: ela foi criada a partir da costela de Adão. Quando a ciência desconhecia a clonagem, dizia-se que era impossível uma pessoa ser criada a partir da costela de outra. Hoje os cientistas têm de silenciar a esse respeito. Como foi exposto com detalhes nas edições 10 até 14 do Jardim Clonal, a Escritura não pode ser avaliada à luz da ciência, simplesmente porque a Ciência é constituída de tal modo que a Verdade é o fim do caminho que ela ainda está trilhando e, que, portanto, por definição, a Verdade está fora da Ciência para que ela seja considerada verdadeiramente Ciência. A Escritura, no entanto, pensa a realidade no sentido inverso, pois conta a história dos caminhos já trilhados pela Verdade desde o início dos tempos – a Escritura pressupõe a Verdade que ela contém para ser verdadeiramente Divina. Enquanto a Ciência busca a Verdade por experimentação, a Escritura já possui a Verdade e simplesmente a declara. Por isso a aproximação da Escritura com a Ciência não pode ser feita como se uma validasse ou negasse a outra.

Para finalizar este capítulo, e evitar que alguém compreenda mal a questão da Ciência como Mito, esclareço que o Mito não é ruim em si mesmo, desde que seja compreendido como Mito e não como Verdade. Mas como um Mito pode ser útil? Porque toda Mitologia é uma sombra da Verdade Divina, embora distorcida pelo pecado inerente ao coração humano – e é possível, com muito discernimento, selecionar e aproveitar esta porção de Verdade e descartar aquilo que se mostrar pecaminoso.

A Cosmovisão Bíblica

Se a Escritura Sagrada opõe-se a visão de que a natureza é composta por diversos pequenos poderes que competem entre si (e que, por sua vez, estão aprisionados dentro da própria natureza) - o que, então, a Escritura ensina? A Escritura ensina que Deus não é ex machina, ou seja, que o Criador não está ausente do Universo. O Deus da Escritura comanda a Criação em todos os seus detalhados aspectos: nós acordamos e respiramos porque o SENHOR nos sustenta [Salmo 3:5; Salmo 54:4; Atos 17:28]; Ele dá à terra as chuvas e as colheitas [Salmo 65:9; Salmo 67:6; Jó 5:10; Jó 37:6]; Ele faz os terremotos e as fomes [Salmo 104:32; Salmo 105:16; Salmo 107:43,35]; nenhum bem ou mal sucede fora de Seu controle [Amós 3:6; Tiago 1:17; Isaías 45:7]. Todos os eventos (históricos ou orgânicos, climáticos ou cósmicos) obedecem ao comando estrito do Deus que rege o Universo pela Sua Palavra. Portanto não existe, na Escritura, diferença entre o natural e o sobrenatural, sequer existe esta divisão – todas as coisas estão sob o direto comando de Deus, cada átomo e cada molécula, cada aeon da existência. Por isso, a Criação se comporta de maneira ordeira, previsível; porque o Deus que a dirige é Deus de ordem e não de confusão [1 Coríntios 14:33]. Segundo a Escritura Sagrada, esta é a origem das aparentes Leis Naturais – a ordem e imutabilidade do Deus que tudo comanda. A Criação que a Escritura nos mostra, é infinitamente superior ao estranho relógio que os naturalistas (e “semi-naturalistas”) pensam existir: ela é infinitamente superior a uma máquina que funciona sozinha. O Universo descrito pela Escritura é a máquina perfeita – uma máquina tão sensível à vontade de seu Criador e Operador que O obedece, todo o tempo em tudo o que Ele ordena - diferentemente da máquina mecânica do Naturalismo. A máquina perfeita, que jamais faz algo que o seu Criador não ordena ou deseja, é obviamente melhor do que uma máquina programada que executa roboticamente seu programa, e aprisiona o seu operador nos limites deste mesmo programa. Deus é o Soberano Criador e Operador da máquina perfeita, portanto, Ele participa dela na mesma medida em que é distinto dela. Ele habita na Eternidade e na Santidade, mas fala no Tempo com os homens corrompidos; Ele existe além dos céus na luz inacessível, mas ocupa toda a Terra e até o mais profundo do Abismo. Ele é o Deus Altíssimo e Temível e nada pode escapar do Seu conhecimento e de Seu poder.

Tendo compreendido melhor os assuntos que permeiam a Teologia dos Milagres, voltaremos, na próxima edição, ao tema do início desta série de artigos: o ensino Bíblico a respeito da Soberania de Deus, o qual está diretamente ligado ao ensino Bíblico sobre os Milagres. Notemos, a este respeito, que é o fato de toda a Criação ser controlada diretamente por Deus (e, assim, não estar aprisionada pelas próprias leis nem pelos poderes nela manifestos), que permite a existência daquilo que chamamos Milagre.